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Grotowski volta à cena brasileira

Criador do 'teatro pobre', o diretor polonês, morto em 1999, ganha uma biblioteca só para a sua obra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 22h00

A despeito de ter resistido à classificação de herdeiro de Antonin Artaud (1896-1948), o diretor polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) é hoje tão reverenciado quanto o criador francês do “teatro da crueldade”. Grotowski, a exemplo de Artaud, acreditava na função terapêutica do teatro. É o encenador que o editor Edson Filho, da É Realizações, ex-ator, escolheu para homenagear com uma biblioteca inteira dedicada a títulos sobre o homem que quebrou a barreira entre palco e plateia, ao defender a aproximação entre atores e público e condenar a transformação do teatro em espetáculo para entretenimento das massas.

A Biblioteca Grotowski ganha só este ano quatro títulos, assinados, inclusive, por profissionais de teatro que trabalharam com Grotowski, sendo o primeiro deles Trabalho de Voz e Corpo de Zygmunt Molik. Simultaneamente, a editora Perspectiva coloca nas livrarias um livro fundamental sobre o método de preparação do ator desenvolvido pelo diretor polonês, Trabalhar com Grotowski, escrito por um de seus mais próximos colaboradores, o ator e diretor norte-americano Thomas Richards.

Grotowski nomeou-o herdeiro dos direitos sobre sua obra. Richards dirige, desde 1999, o Workcenter que leva o nome dos dois, em Pontedera, Itália, um centro de formação de atores. A Perspectiva tem nada menos do que cinco livros relacionados a Grotowski e sua herança, entre os quais destaca-se O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski (1959-1969), volume organizado pelo dramaturgo e crítico de teatro polonês Ludwik Flaszen e Carla Pollastrelli, dois outros colaboradores do diretor. 

Flaszen, radicado na França, ainda está bastante ativo. Aos 82 anos, ministrou, no ano passado, um workshop em Goiânia. Foi ele o responsável pelo convite que levou Grotowski a se fixar em Opole, conhecida por ser vizinha a Auschwitz, após assistir, em 1958, à montagem de estreia do diretor, Deuses da Chuva. Em Opole começou o laboratório experimental e o teatro radical de Grotowski, inicialmente batizado de “teatro pobre” por dispensar todos os penduricalhos que o convencional teatro de espetáculo utiliza (cenários suntuosos, maquiagem exagerada, alta tecnologia e representação caricata).

Foi com a peça Akropolis (1962), de Stanislaw Wyspianski, que o diretor colocou em prática sua teoria sobre o teatro pobre, convidando o público a se integrar ao drama dos prisioneiros de um campo de concentração, todos confinados num crematório. A peça foi filmada com narração de outro grande diretor de teatro, o inglês Peter Brook (Marat Sade), que ajudou a divulgar o “teatro laboratório” e as ideias de Grotowski além da fronteira polonesa.

Zygmunt Molik foi o ator principal da companhia de Grotowski. Nela passou 25 anos, participando das principais montagens do diretor, entre elas O Príncipe Constante (1968) e Apocalypsis cum Figuris (1979). O livro da Editora É traz longas conversas entre Molik e Giuliano Campo, professor e diretor de teatro italiano. É uma porta de entrada generosa para a obra de Grotowski, incorporando num DVD (de 130 minutos) filmes recentes que mostram o método do trabalho de voz e corpo de Molik (Dyrygent, de 2006, e O Alfabeto do Corpo, de 2009).

O trabalho de Molik não é simplesmente o treino da capacidade vocal do ator, mas uma tentativa de encontrar a própria voz, como um xamã que invoca um espírito e é tomado por ele. Grotowski costumava desenvolver workshops com os atores e foi imitado por alguns aventureiros que copiaram desajeitadamente seu método, levando outros colegas a entender mal o que o diretor defendia como “ações físicas”. Seu herdeiro intelectual, Thomas Richards, confirma no livro que a pesquisa de Grotowski tem sido interpretada de modo equivocado como algo “selvagem e sem estrutura, em que as pessoas se jogam no chão, gritam à beça e têm experiências pseudocatárticas”.

Para que o teatro não competisse com o cinema de espetáculo, segundo Grotowski, os atores deveriam praticar o método das “ações físicas” desenvolvido pelo polonês com base nas ideias do diretor russo Stanislavski (1863-1938). Stanislavski criou um método de preparação do ator em que a análise ativa da dramaturgia e o uso da memória emotiva levam ao entendimento pleno da obra. Grotowski seguiu adiante, estimulando os atores ao desbloqueio físico e a tentar novas experiências sensoriais. Não só é necessária a memória, mas especialmente o corpo, para se fazer teatro.

“Vivemos numa época em que nossa vida interior é dominada pela mente discursiva, que divide, reparte, etiqueta e empacota o mundo como se ele pudesse ser entendido”, observa Thomas Richards, repetindo o primeiro dos dez mandamentos da “Declaração de Princípios” de Grotowski - que convida o ator a se tornar o interlocutor ativo do espectador, descartando interpretações falsas e abraçando a improvisação genuína.

Richards admite em seu livro que foi um desastre seu contato inicial com Grotowski, entendendo mal sua proposta de “teatro laboratório”, particularmente o conceito de “máscaras faciais” presente em peças como Akropolis - nela, os atores tentavam transmitir ao público a situação dos judeus em Auschwitz, em especial a dos que eram mantidos no campo de concentração até o extermínio. Como compreender o incompreensível? Por meio dessas máscaras faciais que traduzem as marcas de uma experiência existencial intransferível e esculpem o rosto da tragédia.

Stanislavski chamou de monólogo interior o que Grotowski chamaria de lógica interior. Richards acreditava poder retorcer o rosto até construir essa máscara facial. Grotowski riu muito diante das acrobacias do futuro assistente ao exercitar os músculos faciais, mostrando que uma “atividade” física não é exatamente uma “ação física”, que exige a busca interior da memória exata do gesto para ajudar a compor o personagem.

Molik conta no livro que Grotowski tinha duas frases para se comunicar com os atores: “Acredito em você” ou “Não acredito em você”. Certa vez, o ator Zbigniew Cynkutis (1938-1987), relata Molik, quase matou o diretor com uma cadeirada após ouvir por duas horas que Grotowski não acreditava nele. Quando explodiu como um touro enfurecido, recebeu a aprovação do mestre. “Agora acredito em você”, disse Grotowski.

COLEÇÃO DEDICADA AO ENCENADOR TERÁ TOTAL DE OITO LIVROS

Além do livro Trabalho de Voz e Corpo de Zygmunt Molilk, a editora É Realizações fechou acordo para o lançamento de outros sete títulos dedicados à análise da obra, método e seguidores de Grotowski. São eles: Jerzy Grotowski (em julho), de James Sloviak e Jairo Cuesta; Grotowski e Companhia (em agosto), de Ludwik Flaszen; O Príncipe Constante (em outubro), análise de Lorenzo Mango sobre a montagem da peça de Calderón de La Barca com base na releitura do dramaturgo Stowacki, e O Teatro de Grotowski, de Jennifer Kumiega (sem data de lançamento). 

Livro sobre um ator que resume todas as qualidades de um intérprete grotowskiano, Ryszard Cieslak, Ator-Símbolo dos Anos 1960, de Georges Banu, está sendo traduzido e será lançado em novembro. Além das obras que falam diretamente de Grotowski, a É Realizações continua a publicar títulos de diretores envolvidos com seu método, como Eugenio Barba, que vai ter seu A Arte Secreta do Ator (em novembro), escrito em parceria com Nicola Savarese, lançado aqui antes de La Ricerca (em 2013), de Maud Robart.

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