Grotowski revisitado

Cia. criada por diretor polonês se apresenta em Rio Preto com três espetáculos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2012 | 03h14

O cenário de The Living Room tem a aparência de uma casa de verdade, a sala de visitas de uma casa qualquer. Na peça, criação que o grupo italiano Workcenter of Jerzy Grotowski e Thomas Richards trouxe ao Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, o público não se acomoda em uma plateia convencional, mas em sofás e poltronas. Apoia seus copos em mesinhas de centro. Tem a impressão de estar em uma despretensiosa reunião, na qual todos bebem, comem e conversam.

A intenção da proposta, sugere o diretor Richards, é inserir o público na realização da obra, rompendo com certa condição de anonimato que envolve rotineiramente tanto intérpretes quanto espectadores. "Um ator pode passar anos no palco, diante de milhares de pessoas, sem conhecer ninguém. Já os espectadores podem se sentar no escuro e apagar a sua individualidade, oscilando entre julgamentos de gostar ou não gostar", disse ao Estado o encenador, que atuou como colaborador de Jerzy Grotowski durante 13 anos. "Em The Living Room, não há uma regra que estabeleça que esse comportamento deva mudar. Não é uma necessidade, uma ordem. Mas existe a chance de que mude."

Propósito semelhante parece nortear todas as criações da companhia. Ainda que isso possa aparecer sob formas muito distintas. Outros dois títulos do Workcenter, dirigidos por Mario Biagini, foram incluídos na programação desta edição do FIT: Eletric Party Songs e I am America. No primeiro, a apresentação acontece no contexto de uma grande festa, para mais de 200 pessoas. No segundo, a aparência é de uma peça de feições mais convencionais. Em ambos, porém, ganha corpo o conceito de "arte ritual", noção desenvolvida por Grotowski que ainda hoje é desdobrada pela companhia. "Mesmo que I am America surja como um 'espetáculo teatral' e não como um 'ritual', é possível perceber o mesmo tipo de energia que é a essência da nossa pesquisa. É uma forma muito sutil de reexaminar o que significa estar no palco", considera Richards.

Pensador que atravessou muitas fases, o polonês Jerzy Grotowski ficou especialmente conhecido como o defensor de um "teatro pobre": desprovido de adereços e centrado no trabalho do ator. Sua metodologia, que incluía um treinamento físico e vocal, influenciou gerações de intérpretes e diretores. Em 1986, o artista fundou o Workcenter na cidade italiana de Pontedera e lá trabalhou até o fim de sua vida. Com sua morte, em 1999, Richards assumiu a direção artística do centro e levou adiante o seu trabalho. "É uma pesquisa muito longa, que passou por muitas fases. Usamos canções vindas da África e do Caribe e textos provenientes de diferentes lugares", diz ele. De diferentes partes do mundo, também vêm os intérpretes. Hoje, há representantes de mais de dez nacionalidades no Workcenter.

Nas montagens de Eletric Party Songs e I am America, a identidade norte-americana é posta em revista. Mesmo sem assumir um discurso de pretensões didáticas, nítidos contornos políticos estão delineados. A obra de Allen Ginsberg, poeta da geração beat, serve como esteio para as falas e canções que atravessam os dois espetáculos. Curioso notar como a poesia é tomada aqui não apenas em sua temática, mas como elemento da composição formal. Não existem narrativas contínuas, mas saltos entre ideais e palavras capazes de instaurar imagens.

Em The Living Room, também não há propriamente um enredo. Seis intérpretes circulam entre o público. Oferecem doses de vinho e petiscos. E, dali a pouco, estão a entoar canções e declamar textos referentes a questões da natureza humana. O contexto festivo remete a uma situação prosaica. O que se passa em cena, porém, dá ao espectador a impressão de estar diante de um ritual, uma cerimônia tribal, quase mística. "Queremos nos encontrar com as pessoas em um espaço que seja cotidiano, normal. E, a partir daí, passar a algo muito íntimo, em que estejamos profundamente engajados", explica Richards.

O experimento se relaciona àquilo que Grotowski chamava de "objetividade do ritual", um trabalho com diferentes tipos de energia, que são mobilizados por ações e cantos. "É uma mágica que não tem nada de supersticioso", aponta. "É algo muito antigo, criado por meio de estruturas e tem a ver com possibilidades de expansão da força humana."

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