Groove de Natal

Stevie Wonder e Gil derrubam barreiras e levam público ao êxtase no Rio, em show que repetem hoje em Copacabana

JOTABÊ MEDEIROS, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h04

No bailão do Stevie e do Gil, no Méier, do prefeito ao segurança, todo mundo se acabou de dançar. Não teve jeito: apesar de mais de duas horas de atraso, o show trouxe a vertigem da black music para a Zona Norte do Rio, mostrando que o Divino nunca sai de moda. Stevie Wonder e Gilberto Gil fizeram na noite do domingo o aquecimento para a festa de Natal que promovem logo mais, a partir das 20 horas, de graça, na Praia de Copacabana, para uma multidão estimada em meio milhão de pessoas.

O velho Imperator, casa de shows renovada no Méier, recebeu cerca de 800 VIPs para as apresentações da dupla. Os ingressos custavam quase R$ 900, e era um show beneficente, mas parecia que metade da plateia era composta de convidados. Flanavam por lá a apresentadora Patricia Poeta com o marido e o filho; os atores Cláudia Abreu, Arlete Sales, Malu Mader, Carolina Dieckmann, Guilherme Fontes, Kadu Moliterno; o produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão; as cantoras Marina Lima, Bebel Gilberto e Mart'nália; o poeta Antonio Cícero; os músicos Tony Garrido e Tony Bellotto.

E metade da alta administração municipal, do prefeito Eduardo Paes aos secretários de Turismo e Transportes, compareceu. "Eles só vêm à Zona Norte quando tem algo desse tipo, ou então em época de eleição", resmungou um desconfiado taxista. A Prefeitura teria despendido cerca de US$ 7,5 milhões pelos dois concertos, portanto não era à toa que a festa estava estrelada. No saguão, Carolina Dieckmann brincava com repórteres sobre seu novo apelido na Rede Globo. "O pessoal no Projac agora tira sarro de mim me chamando de 12.737", contou, divertida. O número refere-se ao projeto de lei que tipifica crimes cibernéticos, apelidado no Congresso de Lei Carolina Dieckmann (por causa de fotos íntimas da atriz que vazaram na internet).

Para iniciados ou não iniciados, não importa: a pulsão da música de Stevie Wonder é inapelável. Ele inventou um novo futuro para a música negra em 1972, quando lançou o referencial álbum Talking Book. Munido de 10 músicos e quatro cantores, mais dois teclados Hohner Clavinet D6, dois teclados Korg Triton, dois teclados Yamaha Motif X58 e um Roland X7, ele só entrou em cena quando já era segunda-feira, já tinham se passado 15 minutos da meia-noite. "Eu agradeço a oportunidade que me deram de estar aqui e desejo a todos boas festas", disse.

Wonder tem o seu ritual, e o público, que já se impacientava, logo reconheceu que tinha valido a pena esperar. Tocando um instrumento chamado Harpeji G16 (uma mistura de harpa horizontal com teclado), ele atacou um clássico de Sam Cooke, de 1960, Wonderful World, criando uma sensação instantânea de elevação estética. "Não sei muito sobre História/Não sei muito sobre biologia/Não sei muito sobre ciências/Não aprendi muito das aulas de francês/Mas sei que amo você/E se você me amar também/Que maravilha o mundo será".

O som massudo e epidérmico de Higher Ground foi a senha para a festa. Stevie cria uma tempestade elétrica com seus teclados, mas perceba: a vibração fundamental passa pelo baixo de Nathan Watts (que, não por acaso, é o diretor musical de Wonder, e que era um garoto quando gravaram o clássico Songs in the Key of Life). É uma espécie de maestro do groove, cuidando o tempo todo do tempo de fervura do show.

Houve dois momentos pungentes. Primeiro, quando Stevie tocou Garota de Ipanema na gaita, regendo as centenas de vozes afinadíssimas da plateia - um coro inacreditável, em português, do clássico de Tom e Vinicius, que maravilhou o cantor. Stevie ainda encaixou um Jingle Bells ali no meio. E, no finalzinho, quando chamaram ao palco as crianças de Stevie (Kailand, de 11 anos, e Mandla, de 7; entre os vocalistas, ainda há a filha mais velha do cantor, Aisha Morris, de 37 anos). Para os garotos, Gilberto Gil cantou Boas Festas, de Assis Valente.

Antes, Gil (lendo a letra, para não errar) fez um momento acústico com Stevie, sozinho ao piano. Cantaram juntos The Secret Life of Plants (do disco Journey Through the Secret Life of Plants Volume II, de Stevie Wonder, de 1979) em dueto. Alguns ficaram surpresos com o fato de que Stevie não ter dividido com Gil o megahit I Just Call to Say I Love You, canção responsável por aproximá-los quando Gil fez sua versão em português da música, Só Chamei Para Dizer que Te Amo. O americano pilotou sozinho essa.

Na plateia, era possível ver o impacto do show de Stevie nos olhos dos presentes. Marina Lima fez coro emocionado com ele em You and I. Bebel Gilberto pirou na hora de Sir Duke. O fosso que tradicionalmente separa artista do público começou a desaparecer já pela metade do show. O saxofonista pegou Stevie pelo braço e o colocou a meio metro do público, que por sua vez saiu das cadeiras e foi dançar em volta do piano de Stevie, sob o olhar divertido dos músicos, que não pareciam muito acostumados a essa quebra de protocolo.

Na encruzilhada entre o funk e o soul, com uma voz que parece ainda mais poderosa a cada ano que passa, Stevie Wonder construiu um nicho particular na música pop internacional. Tudo que passa pelo seu filtro adquire um tom revolucionário. Foi o caso de What Christmas Means to Me, que ele gravou em 1967 no disco Someday at Christmas. Uma celebração gospel movida a êxtase e ritmo. Hoje, em vez do gluglu da peruzada, o Natal de Copacabana terá o groove incendiário de Stevie e Gil. É um presentaço.

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