Gritos e sussurros na hora do desejo e da submissão

Senhorita Júlia, de Strindberg, encenada pelo grupo Tapa, sintetiza a luta de classes e a guerra de sexos

JEFFERSON DEL RIOS , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h30

Com uma estilização entre a esgrima e o tango, o diretor Eduardo Tolentino e os bons novos intérpretes do grupo Tapa criaram um conciso e denso Senhorita Júlia do sueco August Strindberg (1849-1912), peça sobre o caso amoroso de uma nobre e seu criado. A linha adotada contorna o naturalismo e o tamanho talvez excessivo do original, mas conserva sua essência. No caso, trata-se de combate de sexos e luta de classes encenados com equilíbrio psicológico e gestos geométricos como um cruzar de floretes.

Não se sabe quanto Strindberg quis usar da história do seu país, mas é possível imaginar que o enredo tem ecos da Grande Guerra do Norte (1715), quando a Suécia deixa de ser uma grande potência ao perder para uma coligação adversária formada pela Rússia, Dinamarca e Polônia, o que lhe custou, entre outros prejuízos, o território da atual Finlândia. É apenas uma hipótese porque Strindberg já é filho da Suécia pacífica e próspera que conhecemos depois do último conflito que resultou na separação da Noruega do trono de Estocolmo. Em todo caso, são lembranças e podem sugerir metáforas a um espírito belicoso e intelectualmente influenciado por Darwin e Nietzsche (a sobrevivência dos mais fortes) e atormentado no plano pessoal.

Senhorita Júlia é a guerra dentro de casa. Não uma casa comum, mas o solar de um conde regido pela secular cultura de mando e submissão. Há o visível traço de resignação e ódio a separar como um fio de navalha os de cima e os servidores. Os personagens estão presos às suas hereditariedades e respectivos códigos de classe. A força inconsciente e subversiva que põe em risco este meio, ainda que por breve instante, é a pulsão sexual.

Há muitas opções para se colocar no palco o pensamento artístico e social do estranho Strindberg, escritor de gênio e paranoico assumido em um livro que se revela desde o título: Inferno. Representá-lo na íntegra é complexo, dada as cenas longas e o elenco numeroso (os fatos ocorrem em uma festa de São João). Tentou-se, recentemente, preencher esse universo agitado com recursos audiovisuais e não foi a melhor saída. Eduardo Tolentino seguiu o percurso entre Freud quanto ao comportamento dos personagens e a pintura flamenga de claro-escuros para expor visualmente a trama que é um jogo sadomasoquista de atração e repulsa carnal, negativa de classe pela decadência e a abjeção.

Júlia carrega traumas de infância: pai aristocrata casado com uma camponesa, o que gerou um conflito natural e incurável entre eles. A filha testemunha o desastre conjugal e adquire a tendência doentia de submeter e, simultaneamente, vingar-se dos parceiros. O chicote para cavalos é um símbolo forte ao longo da peça. O criado, de ostensiva masculinidade, age como os que precisam escapar ao jugo. Sabe do risco ao invadir sexualmente o território da patroa. É um cálculo. Rústico, mas instintivo, tem a meta de ascender financeiramente ou preservar seu espaço atual.

A jovem (autêntica personalidade bipolar pela psicanálise atual) quer o prazer de viés pervertido. Nessas circunstâncias, o amor romântico é abstração como informa com objetividade a noiva verdadeira do homem. Peça menor no mecanismo da casa grande, assiste a tudo sentada de perfil (como estão com frequência as mulheres na pintura holandesa do século 17). Na aparente passividade, ela traduz a parte psicoideológica da questão.

O espetáculo de Tolentino mantém o xadrez strindbergiano: desejo versus desníveis sociais e uma tintura de melodrama. Encenação requintada e ao mesmo tempo simples, que nunca se esquece dos intérpretes. Anna Cecília Junqueira tem o perfil de heroína voluntariosa, equilíbrio entre sensualidade pessoal e técnica de representação. Júlia é um papel ardiloso porque sem uma dimensão trágica pode ser entendido só como outro irritante exemplar de fim de raça, desses que "na fina roupa de baixo de sua consciência, sabiam quem eram" (a definição perfeita é de Robert Musil em O Homem Sem Qualidades).

Na difícil tarefa de se diluir no ambiente e simultaneamente marcar presença, Paloma Galasso mostra a força da fraqueza, algo quase oriental. Augusto Zacchi usa com precisão o tipo físico e a juventude a serviço do papel, que assume calorosamente. A montagem só vacila no fim, quando se define sem impacto o destino da protagonista, enquanto a campainha patronal deveria indicar claramente a servidão como norma. O pequeno vazio cênico confunde um pouco a plateia.

Com mais um espetáculo pleno de sutilezas, o Tapa continua aberto ao novo. Amplia o repertório, elenco e estimula mais diretores. O projeto Uma Ponte na História vai até dezembro com 62 atores, 12 autores, 8 diretores e 17 peças - entre elas O Longo Adeus, de Tennessee Williams (em cartaz no Teatro Viga). Senhorita Júlia é parte dessa caminhada.

CRÍTICA

DIRETOR EDUARDO TOLENTINO CONSTRÓI ESPETÁCULO PLENO DE SUTILEZAS

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