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Grito pela preservação de um povo

A causa ianomâmi nas lentes de Claudia Andujar, em SP

SIMONETTA PERSICHETTI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h10

Os índios ianomâmis sempre tiveram em Claudia Andujar uma voz potente para ajudar na divulgação de sua causa, ou melhor seria dizer, imagens avassaladoras que contam e recontam a vida deste povo indígena. Uma parceria que se iniciou nos anos 1970 e que continua até hoje, quase 40 anos depois.

Amanhã, a fotógrafa inaugura a exposição Sonho Verde Azulado no Prédio Histórico dos Correios, no centro de São Paulo. É uma iniciativa da Brazimage, que há dois anos tem como objetivo a ocupação dos espaços públicos por meio de exibições e projetos multimídias, criando novas relações com a cidade ao levar a arte para fora de galerias e museus.

Mais do que uma exposição, trata-se de uma instalação: são quatro fotos gigantescas, que juntas chegam a 1.200 m², colocadas no mezanino do edifício, mais uma outra, também de grandes proporções, instalada na empena de um prédio vizinho. Há tempos, Claudia Andujar gosta de readaptar e de ressignificar as imagens que já produziu. Não foi diferente com as dos ianomâmis.

Desde 1988, vem trabalhando a refotografia em cores dessas cópias em P&B - que, originalmente, são dos anos 1970 e cujos originais foram produzidos de forma analógica. A artista explica o processo de refotografia: "A partir de uma matriz em preto e branco refotografei as cópias com filmes infravermelhos e com diferentes luzes para criar novas possibilidades cromáticas", conta Claudia, por telefone.

O resultado são registros cujas matizes variam do sépia, azul e verde: "Nos anos 1980 este foi um trabalho inovador e importante". Duas décadas depois, este trabalho continua inédito e inovador. Com a curadoria e parceria de Eduardo Brandão, da Galeria Vermelho, que representa a artista, foram selecionadas quatro imagens de uma mesma menina, de 10 anos, a 'Paxo+m+k +'(leia-se Paxoimiki): "Os ianomâmis não dão nomes para as pessoas como nós fazemos, eles criam apelidos a partir de uma característica pessoal", explica. "Esta menina atravessava os rios por cima dos troncos se segurando nos galhos com grande habilidade, daí o seu nome, pessoa equilibrada." O resultado são registros que variam do verde ao azul, criando uma sensação estética que realmente remete a um sonho. Já a imagem que ficará na empena de um edifício ao lado dos Correios é a de um menino da mesma idade e feita no mesmo período.

"Mas não quero que este trabalho seja visto apenas como algo estético, ou que tenha somente implicações visuais", afirma. "É preciso vê-lo e entendê-lo também como algo político, como uma maneira de continuar falando dos ianomâmi e acompanhando o que acontece com eles."

Coincidentemente, em outubro, 700 representantes ianomâmi se reuniram no Estado do Amazonas para comemorar os 20 anos da homologação da Terra Ianomâmi. Na pauta da assembleia, o futuro e a eterna luta contra a mineração e mineradores. Questões que desde sempre preocuparam Claudia Andujar, nascida na Suíça, em 1931, de origem húngara, mas brasileira por opção. Chega ao Brasil em 1955 e cria aqui sua trajetória como fotógrafa com reportagens realizadas entre 1962 e 1971 para revistas brasileiras, em especial a Realidade. E foi como fotojornalista que ela entrou em contato com os ianomâmis e começou seu projeto de registrá-los. Uma ligação que ela nunca deixou de ter.

A exposição Sonho Verde Azulado é mais uma prova disto: "Este sonho na verdade é meu, embora influenciado pela cultura ianomâmi. Um sonho em que espero finalmente ver preservada a natureza. É essa esperança no futuro que também norteou a escolha das imagens de duas crianças". Um sonho e uma voz que podem ecoar e atrair cooperação. Já que a exposição vai ser no Prédio Histórico dos Correios, quem sabe o governo brasileiro não decida fazer um selo em homenagem aos ianomâmis.

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