Grigris ou os embalos da noite chadiana é decepcionante

Mahamat-Saleh Haroun não está no maior festival do mundo somente para cumprir as cotas

CANNES, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h09

Do Chade veio um filme que parecia a obra de cota no Festival de Cannes deste ano. Um país africano, pobre, um filme sobre um personagem com um defeito físico em uma perna. Isso não o impede de dançar numa balada. Vira o John Travolta nos embalos da noite chadiana. O diretor Mahamat-Saleh Haroun, que foi ao Brasil lançar seu longa anterior - o belo O Homem Que Grita, já apresentado e premiado aqui em Cannes -, não está no maior festival do mundo somente para cumprir as cotas (e ainda por cima 33% dos filmes, em todas as seções, são franceses ou coproduções com a França, como este).

Mas não há dúvida de que Grigris - é o título -, que começa muito bem, de alguma forma termina decepcionando, especialmente no desfecho, quando as coisas se resolvem de uma maneira fácil demais. Um problema parecido termina paralisando o que era um dos filmes mais aguardados do festival. Depois que Drive estourou há dois anos - e Nicolas Winding Refn ganhou o prêmio de direção -, sua nova parceria com o ator Ryan Gosling já fazia os fãs delirarem por antecipação. Only God Forgives passou ontem e teve até vaias na sessão de imprensa.

Trata-se de uma obra ritualística, um policial de clima noir - apesar da sangueira - sobre uma mãe que induz o filho mais jovem a vingar a morte do mais velho, seu preferido. A história passa-se na Tailândia, onde os irmãos usam uma academia de lutas como fachada para o tráfico. De cara, o mais velho anuncia que vai sair para uma estação no inferno. O cara é um animal que quer ter relações com uma menina de 14 anos, mas termina saindo com uma de 16, a quem estupra e mata.

Ryan conta isso à mãe para explicar por que não se vingou, matando o assassino. Kristin Scott Thomas, loira e vulgar - e olhem que a atriz é ícone de distinção -, chama o filho de fraco, dá de ombros e diz que ele (o mais velho) deve ter tido seus motivos.

Há algo de David Lynch - a Isabella Rossellini de Coração Selvagem - na personagem de Kristin. Há um policial justiceiro, que entre uma morte e outra, canta num karaokê. Only God Forgives é superestilizado. Pode-se até ter certo prazer (estético), mas a narrativa se esvazia com personagens que não possuem a força do cinema de gênero. No final, tudo desmorona como castelo de cartas. Winding Refn dedica seu filme a Alejandro Jodorowsky. Está lá, no crédito final. O autor de Santa Sangre merecia coisa melhor. / L.C.M.

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