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Gregório Gruber e Débora Muszkat abrem mostra de retratos

Exposição traz imagens de personalidades que marcaram as vidas dos artistas

Laura Greenhalgh, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2013 | 20h14

“Você saberia desenhar o seu pai sem olhar para ele?”. Uma exposição pode bem começar com uma pergunta desse tipo, quase uma provocação. Ela foi feita um belo dia por Gregório Gruber a Debora Muszkat. Ele, um artista de carreira consagrada, ela, uma artista visionária, há anos lidando com a transparência do vidro, sua matéria-prima escultural. A pergunta viria num momento particularmente difícil, em que Débora acompanha o tratamento de saúde do pai, Rubens Muszkat, um advogado com alma de músico, amigo dos muitos amigos, presença solar na família.

“Tinha que ter os traços dele na memória. Decidi então revirar a sua vida, levei fotos antigas para o ateliê do Gregório na Serra da Cantareira, comecei a riscar, riscar e, quando nos demos conta, estávamos desenhando na mesma folha de papel”, conta Debora. O resultado dessa íntima parceria pode ser conferido a partir de hoje, na exposição Fusões, inaugurada no Centro de Cultura Judaica.

São 50 retratos de personalidades particularmente significativas para os dois artistas. Gente que de alguma forma marcou suas vidas. Debora começa pela própria família -- do retrato paterno e do quadro em que recria o casamento de Rubens e Malvina (sua mãe, conhecida psicanalista de São Paulo), com todo aquele vigor do cerimonial judaico. Daí ambos partem para a família que o mundo trouxe para suas vidas, numa busca que se estabelece a partir do desenho – a mão que não para, puro ato da criação – num trabalho em parceria que se estendeu por um ano inteiro.

Mergulham na chamada artesania. O fazer intenso. A experimentação da técnica até o cansaço. E assim nasce uma coleção de retratos completamente inesperados: uma Amy Winehouse ultra sexy dialogando com sua imagem de menininha. Uma Carmen Miranda brejeira, em momento descontraído com o comediante Jerry Lewis.

Outro momento feliz de Marilyn Monroe e Arthur Miller. Um Arthur Rubinstein tocando piano, sob uma chuva de manchas douradas. Ou um Leonard Bernstein enlevado, como se regesse as nuvens. Um jovem Modigliani. Um trágico Stefan Zweig. Mulheres fortes: Gertrude Stein, Alice Toklas, Hanna Arendt, e por aí vai.

Os retratos nascem do desenho, mas inúmeras vezes transpõem a fronteira da pintura, de fatura mais ou menos tradicional, a depender do personagem e de como os artistas o veem. “Aqui não se está ligado em moda, em tendência de arte”, explica Gregório. “Ao contrário, fomos desafiando posturas: fizemos figuração, que é algo mal visto hoje em dia. Saturamos alguns trabalhos com verniz, na contramão do que se recomenda. E dialogamos muito com o kitsch, afinal, o que é bom gosto hoje em dia?”

Alguns quadros (todos colocados em moldura convencional) resultam mais provocadores. Como o de um garboso Robert Oppenheimer, o “pai da bomba atômica”, de cujo cachimbo brota uma fumaça em forma de cogumelo, metáfora da destruição do homem pelo homem. Outros trabalhos fazem um apelo ao brega irresistível que tratamos de escamotear, como um Roberto Carlos cantando ao vivo em Jerusalém, numa tela cheia de cores.

O público certamente se surpreenderá com a exposição, espécie de libelo estético a que Gregório chegou por trilha consolidada -- aqui não se trata do reconhecível pintor da paisagem urbana, mas de um artista maduro, com vontade de “tirar retratos da gaveta” – e que Débora atinge com sua obra de múltiplos suportes – escultura, pintura, desenho, fotografia – que muitas vezes evolui para as instalações. Em seu início de carreira, Debora Muszkat foi vista como designer de objetos. Reagiu ao rótulo, avançou, depurou e, no ano passado, transformou a própria casa numa obra vidreira. Para abri-la ao público durante meses, continuando a morar nela e fazendo do cotidiano uma experimentação da transparência.

Fusões questiona o ato de criar em parceria. Quando decidiram levar adiante a possibilidade de desenhar lado a lado e de um intervir no trabalho do outro, ambos colocaram-se o desafio da cooperação em arte – Braque/Picasso, Gauguin/Van Gogh – ou da impregnação de um pelo outro, tal como Tarsila e o mestre Léger.

“Para mim foi um tremendo aprendizado desenhar com Gregório. Porque ele faz isso de maneira totalmente espontânea”, conta Débora. Já Gregório lembra dos desentendimentos entre ambos no meio do caminho. E do momento (arriscado) em que um artista resolve invadir o espaço do outro, criando por cima. Não desmente ter passado literalmente sobre o desenho de um Polanski velho, ele mesmo, o diretor de cinema, que estava sendo desenvolvido pela parceira. “Quando vi aquilo, fiquei chocada. Foi uma dor insuportável”, diz Debora. “Não percebi”, acrescenta Gregório. Pois os conflitos da parceria são parte constitutiva da obra que ficará exposta por quatro meses no CCJ, devendo viajar depois. Os trabalhos por enquanto não estão à venda.

FUSÕES

Centro da Cultura Judaica. Rua Oscar Freire, 2.500,

1º andar, Sumaré, 3065-4333.

12 h/19 h (fecha 2ª). Grátis. Até 9/2.

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