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Gre

Perguntavam como ele fazia para conseguir aquela expressão no rosto das mulheres e o Gre desconversava

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 03h00

Gregory, Gre para os íntimos, ficou famoso pelas suas fotografias de mulheres. Gre fotografava mulheres como ninguém. Mulheres não: rostos de mulheres. Do pescoço para baixo Gre as desprezava. Pfui, dizia. Corpos inteiros, torsos, bustos... Pfui. Bonitos eram os rostos. E do pescoço para cima, nenhum fotógrafo se igualava ao Gre. Que cobrava caro pela sua especialização. As mulheres pagavam fortunas para ter um Gre autêntico na parede. Você via um Gre ocupando o lugar de um Picasso numa parede e nem precisava apertar os olhos para ler a assinatura: Gregory. Gre para os íntimos. 

*

Perguntavam como ele fazia para conseguir aquela expressão no rosto das mulheres e o Gre desconversava. Não gostava de elogios. Pfui para elegios. Diziam que Gre tinha um método secreto para fazer suas fotos de mulheres. Como não deixava ninguém acompanhar as sessões de fotos, as especulações se multiplicavam. Diziam que a expressão de uma certa socialite numa fotografia célebre fora conseguida com um tapa do Gre na sua cara, seguido de uma flor. A própria socialite não confirmava nem desmentia o episódio. E o Gre não falava.

*

Sabia-se pouco sobre a vida do Gre. Ele passara uma grande temporada na selva amazônica, fotografando bichos e índios. Um dia voltara para a cidade grande e montara seu estúdio. Em pouco tempo estava famoso, fotografando rostos de mulheres. As que contavam como era ser fotografada pelo Gre, contavam que durante as sessões ele falava. Não parava de falar. 

*

Dizia coisas como:

– Você está nua, acaba de sair da piscina e o Brad Pitt vem na sua direção com um roupão numa mão um martíni seco na outra, para você escolher.

– Você está lendo Nietzsche e de repente levanta a cabeça para pensar no que leu, com a boca ligeiramente aberta.

– Você acaba de ouvir no rádio que a Indonésia desapareceu. Um tsunami levou a Indonésia. 

– Você comeu um sonho igual ao que sua avó fazia e não sabe se ri de prazer ou chora de saudade.

– Você está tendo um orgasmo múltiplo e já chegou no quinto.

– Você está pensando na finitude humana.

Mas nenhuma falava em ter recebido um tapa e uma flor do Gre.

*

Um dia, depois de uma sessão, uma moça se atrasou no camarim e quando passou pelo estúdio viu uma cena insólita: Gre falando com um índio. Gre discutindo com um índio seminu. Os dois agitados.

É claro que, depois disso, as especulações sobre o misterioso fotógrafo só cresceram. E por mais fantasiosas que fossem as especulações, nenhuma chegou perto da verdade. Até hoje ninguém sabe que depois de fotografar uma tribo inteira na selva amazônica e roubar as suas almas, Gre fora intimado pelo cacique a indenizar a tribo com almas novas, de preferência brancas, sob pena de ser caçado, esquartejado e talvez comido. Não adiantava fugir da selva. Viriam atrás dele para cobrar a indenização. Não adiantou Gre argumentar que estava fazendo um lindo livro para mesa de centro, com as fotos da Amazônia. O cacique respondeu: “Índio não tem mesa de centro”.

 

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