Gravuras do paisagista Burle Marx

Burle Marx (1909-1994), que reinaabsoluto como mestre do paisagismo moderno brasileiro, era naverdade um artista bem mais completo, que exercitava suacriatividade além dos limites dos belos jardins, passeios eambientações paisagísticas que o notabilizaram. Uma prova dissoé a exposição Burle Marx - Acervo Ymagos, que seráinaugurada neste sábado na Galeria Marta Traba, do Memorial daAmérica Latina. A mostra, que reúne 110 obras gráficas realizadas porBurle Marx no ateliê paulistano que, há quase 30 anos, se tornouum espaço privilegiado para a produção de gravuras em SãoPaulo. Ele descobriu a técnica tardiamente quando, aos 70 anos,resolveu atender ao pedido de um amigo. E passou a virsemanalmente do Rio para investir nesse novo campo de criação. As imagens criadas por Burle Marx na gravura em metalsão apenas uma pequena parcela de uma vasta produção de mais de2 mil projetos em várias áreas, da jardinagem à arquitetura, dodesenho à pintura. Apesar de importantes diferenças entre suasvárias linhas de trabalho, determinadas não apenas pela técnicae pelas múltiplas aplicações de seus projetos, há em suas obrasuma interessante coerência, que faz com que o espectador percebaa mesma elegância, a mesma economia formal e o mesmo jogo entreas formas construtivas e orgânicas, quer esteja olhando para umapintura, para um projeto de jardim ou para uma gravura. Issomesmo que mais de meio século os separem. É impossível não relacionar os desenhos feitos pelopaisagista para o Aterro do Flamengo ou para a residência OdetteMonteiro (reproduzidos no livro Burle Marx, de Vera BeatrizSiqueira, e editado pela Cosac & Naify) com suas pinturas egravuras. Burle Marx literalmente abstrai elementos da naturezapromovendo uma interessante síntese de formas e cores. Comoescreve Vera Siqueira, ele "afirmou inúmeras vezes que umjardim não era uma simples imitação do mundo natural. Aocontrário, envolvia o diálogo entre as determinações e adinâmica da natureza e o gesto inconsciente de ordenaçãohumana". Como se pode ver no Memorial, sua obra promove uminteressante diálogo entre a arquitetura e a natureza, entre origor racional do homem e a emoção e sensualidade das formaslivres. Também há nessa obra gráfica uma preocupação maior com adefinição do traço, com o uso das cores e linhas de forma maislivre e elaborada do que nos projetos que viriam dar corpo aseus célebres projetos, como o dos calçadões de Copacabana e dasesplanadas de Brasília. A cor também se torna um elemento a ser explorado commais liberdade, aparecendo e desaparecendo das gravuras - que àsvezes parecem grandes planos aéreos e outras lembram mais umapaisagem figurativa e preto-e-branca de uma densa floresta. Eladeixa de representar uma massa, um corpo que passará a existirnum determinado local, para tornar-se um elemento vibrante numacomposição plástica.Serviço - Burle Marx. De terça a domingo, das 9 às 18 horas.Memorial da América Latina - Galeria Marta Traba. Avenida AuroSoares de Moura Andrade, 664, São Paulo, tel. 3823-4600. Até17/7. Abertura no sábado, às 12 horas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.