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Sérgio Augusto
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Grau Dez

Meu apreço pelo carnaval se resume hoje, e não é de hoje, aos sambas e às marchinhas que embalaram minha fuzarca infantil. São essas as músicas que mais vezes me pego cantarolando na cozinha, enquanto preparo o café ou capricho um rango. Com que prazer me entrego à última, nunca à primeira, estrofe de Pirata da Perna de Pau ("Por isso se outro pirata/tenta abordagem eu puxo o facão/e grito do alto da popa: Opa! Homem, não!") e a todos os versos de A Mulata É a Tal, imitando mal e porcamente, mas com reverente empolgação, os trinados de Nuno Roland e Rui Rei.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2015 | 02h05

Aprendemos a gostar de poesia por causa da música que embala seus versos nas canções de ninar, nas cantigas de roda, e, no caso de múltiplas gerações, nos sucessos carnavalescos.

João de Barro, o afamado Braguinha, e não só por causa da mulata cor de canela (salve, salve, salve, salve, salve ela!) e do pirata de olho de vidro e cara de mau, mas também do gato que entrou na tuba do Serafim, da existencialista Chiquita Bacana e do apego a deliciosas expressões populares como "estou aí nessa marmita?", foi o meu primeiro poeta de estimação, junto com Lamartine Babo e Ary Barroso, por coincidência a dupla que compôs o terceiro hit de minha parada carnavalesca, Grau Dez, aquela marchinha que termina assim: "Morena da cabeça aos pés/Morena eu te dou grau dez".

Há dias reencontrei outro trecho dela a cintilar num aposto de A Morte da Porta-estandarte. Rosinha, a infausta porta-estandarte criada por Anibal Machado, é descrita como uma "rainha da cabeça aos pés", ou ao menos assim a veem os olhos cúpidos do Otelo que a sacrifica em plena avenida.

A releitura do mais aclamado conto de Anibal Machado fazia parte de uma dieta lítero-carnavalesca que me impus para ver no que podia dar. Deu em nada, a não ser nas divagações capengas que vocês estão lendo. As ficções ambientadas no que Oswald de Andrade ungiu como "o acontecimento religioso da raça" já foram exaustivamente analisadas e por gente bem mais capacitada do que eu, mas não desperdiçarei o tempo que na semana passada lhes dediquei.

Passei rápido pelo entrudo e seus clássicos observadores, Machado e Raul Pompeia, para me fixar no carnaval tal qual o conhecemos há mais ou menos um século. Fui de João do Rio e Lima Barreto (seu chaplinesco O Meu Carnaval é o mais divertido da espécie), passando pelo inevitável Marques Rebêlo (Caprichosos da Tijuca e Uma Senhora) e pela imbatível Clarice Lispector (Restos do Carnaval), todos acessíveis na internet, aos recentes Sérgio Rodrigues (A Máscara), Marcelo Moutinho (Folia) e Vinicius Jatobá (Era no Tempo do Rei).

Nossa prosa carnavalesca é um corso harmonioso de figuras e situações afins e remissivas, de alegria e tristeza: amor e tragédia, Baco e Tanatos. Seu espaço se concentra nos subúrbios, nas favelas e nas ruas e avenidas do Centro do Rio, onde foliões lúbricos e geralmente tesos (não raro empregados de alguma oficina mecânica na zona norte da cidade) se cruzam com ingênuas e românticas moçoilas atazanadas por pais temerosos e repressores e maridos e namorados patologicamenre ciumentos. Aqui e ali, um apelo ao cancioneiro da festa, aos meus bardos de infância. A narrativa de A Máscara, de Sérgio Rodrigues, é toda perpassada por alusões a sambas e marchinhas da época de ouro do carnaval carioca.

Como nos bailes de antigamente e na música, a máscara, guardiã de identidades, fiadora do anonimato e misterioso afrodisíaco, tornou-se elemento crucial na ficção carnavalesca. Meu favorito no gênero, o tétrico O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, é "uma história de máscaras", provavelmente inspirada pelo Gaston Leroux de O Fantasma da Ópera. Quem a conta é um alter ego do autor, Heitor de Alencar, personagem de perfil nelsonrodrigueano, que se lança à porneia momesca, disposto aos excessos da carne e às maiores extravagâncias, com "uma ânsia de acanalhar-se quase mórbida". Não é para qualquer escriba a imagem de Heitor perdido numa lôbrega ruela a ouvir uma fantasia "tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete".

Em torno de uma máscara carnavalesca Rubem Fonseca construiu o conto de título mais intrigante da coletânea Os Prisioneiros, sua estreia literária: Teoria do Consumo Conspícuo. Num baile de salão, o narrador se encanta por uma foliã que se recusa a mostrar o rosto para não expor o nariz, que só não submeteu ainda a um bisturi por absoluta falta de recursos. O nariz é perfeito e a cirurgia plástica acalentada pelo moça, um despautério, um caso anômalo do "consumo conspícuo" teorizado pelo crítico social Thorstein Veblen.

Por coincidência, referi-me à teoria de Veblen no Aliás de domingo passado, a propósito do incentivo à gastança mais frívola por reality shows do gênero Além da Conta. E já que estou me repetindo, ainda que de forma austera e em contexto diverso, aproveito para voltar a falar em Mário de Andrade. Não é uma fixação minha, mas é que andei lendo suas cartas e numa enviada a Manuel Bandeira descobri o porquê de sua ojeriza inicial ao fuzuê carnavalesco.

Mário debutou no carnaval do Rio em 1923. Sentiu-se como o amanuense de Cyro dos Anjos se sentiria no carnaval de 1935, impossibilitado "de se fundir na massa". Mais do que isso: sentiu-se enojado, chocado com a vulgaridade e a gritaria. "Acreditei não suportar um dia a funçanata chula, bunda e tupinambá", confessou, mas, para não incorrer em "julgamentos levianos" e preferir olhar as coisas com amor e procurar compreendê-las, ficou os três dias regulamentares, "como um tupi tangendo um alaúde".

Entre rajadas de confetes, hálitos e perfumes diabólicos, esbarrando em Seminaris, Marílias, Helenas e Cleópatras, em mil Julietas, Isoldas de pijama, alsacianas e holandesas, afinal rendeu-se à "pagodeira grossa" e da experiência extraiu um poema. Pena que em 1923, apesar dos esforços de Eduardo Souto, Sinhô e Freire Júnior, o repertório musical da folia estivesse bem aquém de um grau dez.

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