Grateful Dead, negócios do rock

Mostra em Nova York revê a banda de cabeludos nascidos na contracultura, mas com uma visão comercial pioneira

Francisco Quinteiro Pires ESPECIAL PARA O ESTADO / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2010 | 00h00

Visão. Jerry e Phil Lesh, guitarrista e baixista: relação com fãs valorizada                  

 

 

 

 

 

A trajetória do Grateful Dead causaria inveja a muito capitalista. Formada em 1965, a banda de São Francisco foi pioneira nos negócios ligados à música. Ao injetar profissionalismo à condução da carreira, ela frustrou o estereótipo esperado de músicos nascidos na contracultura, e imersos em experiências lisérgicas. A inesperada responsabilidade desses roqueiros cabeludos e o seu sucesso comercial vêm à tona na exposição The Grateful Dead: Now Playing at the New York Historical Society.

Quando estreou em março, a mostra tinha previsão de ir até 4 de julho, mas foi estendida até 5 de setembro. O êxito se deve ao Grateful Dead Archive, o vasto acervo da banda, com contratos, cartas, camisetas, discos, filmes, pôsteres e fotos, doado, em 2008, para a University of California. Com ele é possível acompanhar a história do grupo até 1995, quando realizou o último dos seus mais de 2.300 shows.

Criada por Jerry Garcia (guitarrista e band leader); Bob Weir (guitarrista), Phil Lesh (baixista); Ron "Pigpen" McKernan (gaita e teclado); e Bill Kreutzmann (baterista), a banda inventou uma sonoridade que fundia blues, country, jazz, folk e bluegrass. E foi o primeiro grupo de rock a assinar com a gravadora Warner Bros, tendo participação de 8% em cada lançamento nos EUA. A baixa lucratividade com a venda de discos levou o grupo a abolir intermediários e a tomar posse dos direitos autorais. Nas décadas seguintes, a banda se cercou de profissionais para vender ingressos diretamente aos fãs pelos correios. Os Dead Heads (apelido dos fãs da banda) coloriam os envelopes em que solicitavam a compra das entradas e os melhores desenhos chegavam depois às camisetas oficiais e às capas dos discos. Ao estreitar a relação com os fãs, a banda incorporou a força criativa de milhares de anônimos.

Ousadia. A primeira grande ousadia do Grateful Dead, o Wall of Sound, um sistema de som construído com mais de US$ 300 mil no início dos anos 1970, era para monitorar melhor as execuções instrumentais. Os altos custos, porém, cancelaram a empreitada. A obsessão sonora fez os músicos perseguirem dois objetivos, a princípio, irrealizáveis. Eles desejavam manter, nos discos de estúdio, a espontaneidade do palco e, nas apresentações ao vivo, a precisão das gravações. Esse procedimento atraiu filas de aficionados ao Fillmore Auditorium (São Francisco) e ao Fillmore East (Nova York), já na segunda metade dos anos 1960.

Na sequência, o grupo eliminou o operador da mesa de som para, sozinho, ter controle sobre a qualidade do áudio. Depois, permitiu que os fãs gravassem os shows em fitas cassete e as distribuíssem livremente. Só precisavam comprar um ingresso especial - de preço acessível - e ficar com os gravadores na área reservada para o registro das apresentações.

A banda acreditava que os tapes, rolando de mão em mão, estimulariam a compra de discos, além do aumento de público. Não é difícil imaginar o que pensariam sobre a distribuição de músicas na internet. Quando a rede mundial surgiu, muitos artistas passaram a se comunicar com o público via websites oficiais. Como não havia internet, o Grateful Dead se valeu dos correios.

A mostra deixa saber que o quinteto não teve medo de ser moldado pelos fãs. Os músicos de São Francisco entenderam que a originalidade da criação não é fruto de uns poucos.

NA ERA DO RÁDIO E DOS TAPES

O início

O Grateful Dead foi fundado em 65 por músicos de São Francisco.

A banda

Formação original: Jerry Garcia (guitarra); Bob Weir (guitarra), Phil Lesh (baixo); Ron "Pigpen" McKernan (gaita e teclado); e Bill Kreutzmann (bateria).

O disco

American Beauty (1970) é um dos 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Rolling Stone.

Os símbolos

Caveira e rosas, símbolos associados à banda, foram inspiradas em desenhos de Edmund Joseph Sullivan para uma edição de Rubaiyat, de Omar Khayyam.

A divulgação

A banda transmitia pelo rádio datas de shows e disponibilidade de ingressos.

O som

No começo dos anos 70, o grupo construiu o Wall of Sound, sistema de som poderoso.

A venda

A banda instituiu a venda direta de ingressos para fãs, eliminando intermediários.

Os fãs

Grupo permitiu que os fãs gravassem em tapes as apresentações para depois serem distribuídas livremente.

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