Grandes verdades e uma barata

Hoje é dia da mentira. A mentira é universal: crianças e adultos de todo o planeta mentem em diferentes doses e circunstâncias. Ivone S., uma amiga brasileira que mora na Alemanha há dois anos, concordou comigo e acrescentou que a única exceção é a classe política, que nunca mente. Ivone deu vários exemplos:

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

a) George W. Bush não mentiu quando afirmou que havia armas químicas e de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein.

b) É equivocado o apelido que deram a Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico: Tony Bliar.

c) Hugo Chávez afirmou que o capitalismo acabou com civilização em Marte. Como todos sabem, é uma afirmação verossímil, já comprovada.

d) Todos os políticos do Planalto são honestíssimos e honrados: homens e mulheres que dizem a verdade e somente a verdade, mesmo diante de câmeras escondidas.

e) Ninguém duvida das palavras de Kadafi. Segundo o coronel, todos os opositores a seu governo (incluindo as crianças) são terroristas da Al-Qaeda. Só os mentirosos consideram Kadafi um ditador sanguinário e excêntrico. A grande verdade é que o coronel é um homem cordato, humilde e magnânimo.

f) Outro exemplo de verdade incontestável: o Pentágono e seus aliados militares da Europa morrem de pena da população civil da Líbia, um país cuja maior fonte de riqueza é a alcachofra, e não o petróleo.

Depois Ivone contou que tinha ido morar na Alemanha por causa de um inseto.

Um inseto?

Sim, um simples inseto, disse Ivone. Quando surgiu a barata, meu chefe ficou em pânico.

Barata? Chefe?

Durante uma reunião em São Paulo com meu chefe, uma barata sobrevivente da última faxina rodopiou no meio da sala, prosseguiu minha amiga. Era uma barata cascuda, cosmopolita, e estava zonza. Somente dei importância à barata quando meu chefe se levantou da cadeira, acuado pela visão do inseto asqueroso. Quer dizer, asqueroso para ele, não para mim.

Também detesto baratas, cascudas, cosmopolitas ou provincianas, eu disse.

São seres inofensivos, protestou Ivone. E não mentem nem matam que nem os homens. Além disso, uma personagem de Clarice usou uma barata para comungar. É o máximo da transgressão e da transcendência.

Sem digressões literárias, Ivone. Vamos à barata: o que você fez?

Tentei tirar o inseto da sala, mas sem machucá-lo. Enquanto afastava a barata até a porta, meu chefe dizia: pise nela, esmague... E quando ela sumiu, voltei à cadeira e disse: já foi embora, doutor Klaus.

Ele ajeitou a gravata, se recompôs, sentou e enxugou o suor com um lenço de seda. Estava pálido, bebeu água e observou o chão. Para reanimá-lo, informei que as vendas da empresa tinham aumentado e entreguei-lhe o último relatório. Sorriu pela primeira vez. E eu comecei a rir...

É pra rir mesmo, disse o doutor Klaus. Rir e comemorar.

Eu ria e mexia os ombros, como se estivesse dançando; as cócegas nas minhas costas não paravam, subiam e desciam...

Você está muito mais animada do que eu, disse meu chefe.

Mas o senhor não tem uma barata nas suas costas, eu disse.

Como...?, ele gritou, assustado. Como ela foi parar nas suas costas?

As artimanhas das baratas são incríveis, eu disse.

Então tire essa barata do seu corpo, disse o doutor Klaus, nervoso.

O que eu fiz? Tirei a blusa, encontrei a barata, fui até a janela e joguei-a no espaço. Era voadora, de asas potentes. Voltei à mesa e, quando me sentei, reparei no rosto vermelho do chefe, que me olhava com admiração. Quer dizer, naquele momento não sabia dizer se era admiração ou outra coisa. Eu estava de sutiã, com a blusa no meu colo. Vesti lentamente a blusa e ficamos em silêncio, um olhando para o outro. Enquanto bebia água, ele não tirava os olhos da minha blusa. Depois meu chefe encerrou a reunião. Cinco meses depois casei com Klaus Schabe e fomos morar em Hamburgo, sede da empresa onde ele trabalha.

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