Grandes concertos e algumas ideias ainda em construção

Análise: João Marcos Coelho

O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2011 | 03h06

É uma temporada para todos os paladares. É preciso aplaudir a programação das três sinfonias de Leonard Bernstein na temporada, assim como de 4 das 15 sinfonias de Shostakovich. Em boa hora, três concertos homenageiam o centenário de nascimento de Eleazar de Carvalho, que assegurou a Osesp em tempos dificílimos (destes, o mais significativo é o que traz a Missa Solemnis, de Beethoven, regida por Thomas Dausgaard). E a execução da Sinfonia n.º 10 - Ameríndia, de Villa-Lobos, com Isaac Karabtchevsky, sequência da integral do compositor).

Há alguns deslizes, como convidar o pianista Marc-André Hamelin para um repertório equivocado com orquestra: ele sola o concerto n.º 17 de Mozart, logo Hamelin, que se destacou com repertórios tecnicamente dificílimos, como de Alkan, Liszt, Godowski-Chopin e o concerto de Busoni. Chamar de ciclo "Concertos para piano de Mozart" a programação de 5 de seus 27 não é adequado. A ideia de instituir a figura do "Artista em Residência", com quatro apresentações do mesmo artista, já é hábito das orquestras norte-americanas e europeias. Mas não se aplica à figura do "Compositor em Residência". O finlandês Magnus Lindberg, bela escolha, aliás, fica entre nós por cinco dias para uma palestra e dois concertos. Um rápido exame do conceito em outras orquestras evidencia que o compositor em residência costuma compor obras inéditas para a orquestra à qual fica ligado. O próprio Lindberg, compositor em residência da Filarmônica de Nova York, não só criou novas obras como fez a curadoria da série de música nova Contact! da filarmônica.

Isso nos leva às encomendas programadas pela Osesp para 2012. Em sete, três são adequadas: as de Aylton Escobar para coro, Marco Padilha (a mais ambiciosa, um concerto para violoncelo) e a peça curta de Clarice Assad sobre o Hino Nacional. Das quatro restantes, numa a Osesp junta-se às orquestras de Los Angeles e Birmingham para encomendar obra a um compositor mexicano, Enrico Chapela - gesto no mínimo discutível quando tantos jovens compositores brasileiros anseiam por uma encomenda como essa.

Nas três restantes, a Osesp mostra que a peça de Edu Lobo deste ano não era acidente de percurso. O conceito é espinha dorsal da orquestra daqui para a frente. De novo, nada contra Paulo Bellinatti, Toninho Ferragutti ou Luiz Cláudio Ramos. Ao contrário, todos são excepcionais músicos, aos quais não cabe nenhum reparo estético. Por exemplo, no concerto do dia 22/4, Wagner Polistchuk rege movimentos da suíte para orquestra de cordas Sertão Veredas, de Egberto Gismonti - atitude correta e muito bem-vinda.

A questão é econômica. Para que investir em encomendas a músicos cuja produção sobrevive comercialmente no mercado e vez por outra são contemplados com participações especiais justíssimas na temporada de outra orquestra do aparato do Estado, a Jazz Sinfônica, em vez de apostar nos jovens compositores brasileiros? Perdeu-se, preciso insistir, a chance de fazer não três, mas sete encomendas a compositores experimentais, que tateiam por aqui em busca da música do futuro. E por que não transformar, por exemplo, em prioridade zero a implantação imediata da transmissão via internet, que numa experiência isolada este ano atraiu 23 mil acessos durante o concerto? Isso é ampliar o público da Osesp e democratizar, em definitivo, o acesso à sua ótima programação.

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