Grandes autores nos palcos do Festival de Curitiba

Duas montagens fortemente autorais se destacaram na mostra principal no primeiro fim de semana do Festival de Teatro de Curitiba, que começou na quinta-feira e termina no domingo: Fausto Zero, concepção de Gabriel Villela para a peça do alemão Goethe, e O Que Diz Molero, transposição cênica de Aderbal Freire-Filho para o romance do português Diniz Machado. Em ambas podem ser facilmente reconhecidas as ´assinaturas´ de seus diretores. Em Villela, a utilização da cultura popular brasileira como filtro para narrar a história do homem que ambiciona conhecer o mistério da existência e para isso vende sua alma ao diabo. Em Freire-Filho a radicalidade de linguagem teatral, na qual cinco atores vivem 200 personagens, bastando um xale, um gesto, um movimento para se criar uma cena que será completada pela imaginação do público. Molero é uma espécie de relatório de investigação da vida de um rapaz, um andarilho, desde a infância até a idade adulta. A narrativa traz um balanço dos mitos, medos e sonhos que povoaram o imaginário dos homens do início do século passado até o fim da década de 70. Um imaginário alimentado sobretudo pela arte, literatura, teatro e cinema. Porém há uma grande diferença entre a ´assinatura´ impressa nessas duas montagens e aquelas que dominaram a cena teatral, no Brasil e na Europa, a partir da década de 80, enchendo os palcos de efeitos tecnológicos e fumaça. Nas de agora, há espaço para a criação de cenógrafos, figurinistas e, sobretudo, atores, estes últimos, muito evidentemente transformados em co-autores de cada cena, exigência mesma do processo de criação adotado pelos dois diretores. Não por acaso, ambas tem ótimo elenco, com destaque para Walderez de Barros e Vera Zimmerman em Fausto, e o trio Chico Diaz, Orã Figueiredo e Cláudio Mendes em Molero. Fausto Zero, que estréia no sábado no Espaço Promon em São Paulo tem uma concepção muito particular, com execução coerente do início ao fim, imagens muito bonitas e um delicioso humor feito de pura auto-ironia. Antes mesmo de a peça começar, coxias, urdimentos e maquinarias podem ser vistos pelo público. A idéia de ´revelar´ camadas invisíveis perpassa toda a montagem.

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