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Grande queima de estoque

E assim termina a campanha mais sórdida na memória recente dos Estados Unidos. A campanha termina como começou, um interminável informercial disfarçado de movimento político.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2016 | 03h00

Os eleitores usados como extras vão acordar no dia 9 de novembro cobrando instruções do grande líder, sem saber que ele manifestou desejo de sumir por uns meses, talvez jogar golfe num dos campos que possui e, claro, inventar novas fórmulas de separar otários de seu dinheiro.

O problema é que os novos fregueses do grande líder não têm poder aquisitivo para jogar golfe, usar seu perfume ou morar nos edifícios que ele não constrói, mas aos quais empresta o nome para colocar na marquise mediante alta recompensa.

Há um temor justificado de episódios de violência se, como preveem as pesquisas, Hillary Clinton se eleger presidente no dia 8. Trump continua a dizer que a eleição vai ser roubada, a despeito da conclusão de especialistas que examinaram toda a história recente de irregularidade nas urnas e garantem: é virtualmente impossível roubar uma eleição presidencial nos Estados Unidos.

Mas Trump, um gângster escolado em jogar sujo há quatro décadas, projeta seus métodos em tudo o que vê como obstáculo. Fraude na urna, no algoritmo do Google, na cobertura da TV – esta, de fato, uma grande cúmplice de sua ascensão. E agora até o Twitter, segundo ele, se juntou à conspiração para omitir notícias negativas sobre Hillary.

Como disse no Aliás um dos biógrafos do candidato, Trump temia que sua repulsiva série de TV, Celebrity Apprentice, não fosse renovada por causa do declínio de audiência. Assim nasceu a campanha presidencial que pode resultar no suicídio do Partido Republicano.

Mas, como no provérbio atribuído aos chineses, cuidado com o que deseja, pode acabar conseguindo. Trump conseguiu os votos de 13 milhões e 300 mil eleitores durante as primárias. Como ele é preguiçoso, parece sofrer de sério déficit de atenção e não tem planos sérios de governo, encara sua candidatura como uma extensão de branding.

E a marca Trump sofreu um sério desgaste nestes dezoito meses de campanha. No meu bairro, os inquilinos de uma fileira de arranha-céus horrorosos que ele plantou à beira do Rio Hudson assinaram petições para retirar o nome Trump da fachada.

Trump tem arrastado a crédula mídia para fazer propaganda grátis para seus projetos, como por exemplo anunciar uma suposta revelação e convocar uma coletiva para promover um novo hotel em Washington. Mas o hotel cinco estrelas, mal foi inaugurado, oferece descontos por causa da baixa procura por reservas. A revista de turismo Travel Weekly consultou mais de mil agentes de viagem e descobriu que seus clientes estão evitando hotéis e destinos com o nome Trump. 

Há um movimento de boicote à linha de roupas de Ivanka Trump, a filha mais velha do candidato e executiva de sua empresa, que passou boa parte da campanha incólume ao asco reservado ao pai.

Mas, depois de Ivanka tentar justificar a confissão de assalto sexual contida nas gravações do programa Access Hollywood, em que Trump diz que seu método é agarrar as mulheres pela vagina, o movimento “Agarrem suas Carteiras” está na cola de lojas que vendem a linha de Ivanka. Sabe-se que ela está assustada com a ameaça de seu sobrenome ter se tornado veneno comercial. 

O marido de Ivanka, Jared Kushner, andou consultando investidores para “monetizar” a lista de 14 milhões de e-mails e cartões de crédito e formar uma Trump TV.

Na revista New York que sai hoje, um alto assessor da campanha descreveu assim o clima na Trump Tower da 5a Avenida, residência e QG do candidato: “Pense no bunker logo antes de Hitler se matar. Donald está em negação. Todos lá estão em negação.”

Mas o suicídio que realmente assusta é o de um sistema democrático de quase 230 anos. Os trumpistas acreditam em trumpismo. Mas Trump acredita apenas em faturar.

 

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