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Grande Nirlando

Grande jornalista, ótimo escritor, ele não se foi sem nos contar uma bela história

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 03h00

À maneira de um repórter que põe à prova a exatidão das informações garimpadas, repasso minhas lembranças de Nirlando Beirão, falecido no último dia 30 – e não encontro uma que não seja boa. De quantos amigos, por melhores que sejam, pode alguém dizer o mesmo? 

Em meio século de camaradagem, tudo que me veio dele foram atenções, delicadezas, alegrias. E não falo apenas de momentos obrigatoriamente inesquecíveis, desses em cuja moldura parecem pendurar-se cachos de serafins a soar trombetas. A minha primeira noite em Paris, por exemplo, num verão distante, quando nos deixamos levar, sem rumo, para onde o nariz apontasse, nós dois e o José Márcio Penido, que nem as folhas mortas no outono do poema de Prévert. Curiosidade: no emblemático maio de 68, ainda sem se conhecerem, o Nirlando e o Zé Márcio deixaram Belo Horizonte no mesmo ônibus da Viação Cometa, rumo a São Paulo, cada qual com seu convite do Jornal da Tarde. Tinham então 19 e 23 anos de idade. Em 1970, lá estavam dividindo apartamento em Paris.

Houve bem mais que momentos festivos. Minha camaradagem com Nirlando resistiu à prova do convívio em redações, onde a trepidação do ofício de encher páginas pode ser moenda para amizades as mais resilientes. A seu convite, estivemos lado a lado, ainda jovens, na revista Veja e na aventura do efêmero Jornal da República de Mino Carta, e mais tarde, já maduros, na Playboy. Nos dois primeiros, foi meu chefe – dos melhores que tive, capaz de combinar firmeza e doçura no comando.

Nirlando estava comigo na noite em que me tornei pai – foi ele que, tendo visto a luz azul acender-se no painel das salas de parto, veio me anunciar que o Paulo acabara de chegar. Poucas semanas depois, chegaria a sua Julia, filha da Rachel, a bela Rachel de Almeida Magalhães, sua primeira mulher, que haveria de partir dois meses antes dele. Tenho sob os olhos uma foto em que os dois bebês dividem uma coberta estendida no chão da varanda da fazendola de meus pais, nas vizinhanças de Belo Horizonte, a cidade onde nascemos, o Nirlando e eu. 

Tive o privilégio de estar nas suas imediações nas longas décadas que meu amigo repartiu com a não menos bela Marta Goes, jornalista talentosa, dramaturga melhor ainda, mãe da Maria e do Antonio Prata, crias do Mario Prata para quem Nirlando não foi menos do que pai, e mais adiante amoroso avô dos filhos deles. Me lembro de visitá-los na Bryaxis, ruazinha simpática onde moravam também a dona Gilda Mello e Souza e o professor Antonio Candido, e num par de vezes, pelo menos, cruzei a rua para estar com os mestres. Em 2002, aliás, ele topou prazerosamente um convite para prefaciar – Bom trabalho, rapazes – a segunda edição de Cabras, delicioso caderno de viagem, com textos, fotos e desenhos, nascido de incursão que o Antonio Prata, o Paulo Werneck, o Chico Mattoso e o Zé Vicente da Veiga fizeram ao Nordeste, no programa Universidade Solidária. 

Estive por perto nos quase quatro anos em que Nirlando encarou a luta desde o início perdida para a esclerose lateral amiotrófica, e o vi transitar, sem lamúrias, da bengala ao andador, e do andador à cadeira de rodas – na qual, certa noite, rodou de seu apartamento, na rua Itacolomi, ao restaurante La Frontera, a algumas quadras dali, para jantar comigo e com Ana Massochi, a dona da casa, numa carreira que pôs à prova o fôlego da Marta. O mesmo La Frontera onde, faz um ano neste mês de maio, centenas de amigos foram festejá-lo no lançamento de seu último livro, Meus começos e meu fim.

Já privado de boa parte de seus movimentos, Nirlando substituiu os autógrafos por três alternativas de carimbos, todos eles com a assinatura do autor ao lado de um desenho; para o meu exemplar, fiz questão da taça de vinho e da máquina de escrever, mas, cruzeirense incurável, declinei do escudo do Corinthians, o clube com o qual o torcedor atleticano dividiu seu coração, ao ponto de lhe haver dedicado um livro, em coautoria com o Washington Olivetto. 

A noitada de lançamento foi ocasião de reencontro para as inumeráveis amizades que ele fez e alimentou, e só entre os jornalistas com os quais trabalhou seria possível formar ali algumas redações. Inesquecível, também por isso, o espetáculo daquela multidão de cabelos escuros, brancos e grisalhos, para não mencionar aqueles que, em sentido figurado ou não, azularam, pois Nirlando Beirão (que esplêndido nome!, comentou comigo Otto Lara Resende, numa carta) cuidou, a vida inteira, de ter em torno de si uma enriquecedora mescla de veteranos e principiantes, recusando-se à pobreza de se restringir a seu próprio vagão geracional. 

(Ao reviver agora aquela noitada para todos gloriosa, me dou conta de uma dupla perda, pois além de Nirlando Beirão já não temos La Frontera, fechado em definitivo pela pandemia do maldito vírus).

Nosso amigo não entregava os pontos. Seu último texto foi enviado à redação da CartaCapital na véspera da morte. Com os movimentos reduzidos a um dos dedos da mão direita, até o fim Nirlando seguiu escrevendo na revista do Mino Carta – amigo a cujo time pertenceu intermitentemente sob vários tetos, desde o dia de 1977 em que, a convite dele, deixou a Veja para incorporar-se à equipe que iria lançar a IstoÉ. Por onde passou, deixou textos memoráveis, sem data de validade, pois seu modo de contar encanta até mais do que a coisa contada. Muitos, não tenho dúvida, merecem estar em livro, pouco importando quando foram feitos, pois sua fatura é tão fina que o tempo que passou por eles não lhes cavou rugas. 

Sua produção mais alta ficou sendo Meus começos e meu fim, livro no qual o drama da condenação à morte, contado sem um grão de pieguice, se entrelaça ao literal romance de António – seu avô paterno, jovem padre português que há mais de cem anos veio dar com os costados em Oliveira, no interior de Minas, onde se apaixonou pela jovem Esméria. Como que fiel ao preceito cristão, o casal cresceu e se multiplicou, e há muito repousa no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, num túmulo que acolheu também Nirlando e Leda – e, faz uns dias, o segundo Nirlando de uma bela história, por ele tão bem contada.

Na última vez que nos vimos, em janeiro, presentes a Marta e o Ivan Marsiglia, ele já não falava, mas a mente, acesa, acompanhava o papo, que aqui e ali pontuava com sorrisos. Na minha cabeça, boiava o tempo todo o verso de Drummond que ainda agora me atormenta: 

“Por que Deus é horrendo em seu amor?”

 

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