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Grande Circo Místico

 “O Obamacare foi a pior coisa que aconteceu nos Estados Unidos desde a escravidão.”

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2015 | 04h00

O que a colunista andou fumando? Nada. O comentário acima foi feito por um proeminente neurocirurgião, um afro-americano que compara a vida sob o primeiro presidente afro-americano à vida na Alemanha nazista. Ainda bem que ele aposentou seu bisturi ou eu colaria um lembrete no meu cartão de seguro saúde: em caso de acidente, a paciente não quer seus miolos confiados ao doutor Ben Carson. O mesmo médico concluiu em voz alta que o casamento gay leva à pedofilia e à bestialidade. Não é à toa que estudantes da prestigiada escola de medicina da Johns Hopkins University exigiram que o doutor Carson renunciasse como paraninfo de sua formatura, em 2013.

E que tal o ex-governador e pastor batista que virou garoto propaganda de um charlatão suplemento para combater o diabete, à base de ervas? Não me consta que ele fuma algumas, mas é natural ficar desconfiada porque o website do gajo anuncia que há uma cura para o câncer escondida na Bíblia.

E o senador em exercício do mandato que telefonou para o Pentágono cobrando satisfações sobre uma possível conspiração federal contra seu Estado, o Texas? Ele se disse preocupado por seus constituintes, diante de um exercício do exército americano conhecido como Jade Helm 15, previsto para durar dois meses em sete Estados do sudoeste do país. O senador não parece consumidor de alucinógenos, mas achou por bem dar credibilidade à teoria de que a operação militar é um disfarce para invadir o Texas. Como em qualquer exercício militar, alguém tem que fazer o papel de território inimigo. No caso do Jade Helm 15, o papel foi atribuído ao Texas e Utah. Como vivemos em tempo de estupidez viral, a cadeia Walmart teve que emitir um comunicado negando que o exército americano estivesse escavando túneis sob algumas de suas lojas que fecharam as portas, em preparativos para a invasão.

Mas não devemos nos esquecer de um atual governador que, diante de uma pergunta simples (“O senhor acredita na Teoria da Evolução?”), disparou: “Vou cair fora dessa, políticos não devem se envolver com a questão, de uma maneira ou de outra”. Sem ter tomado umas ou outras, o governador sabe que o conhecimento científico sobre a evolução, apelidado pelos fundamentalistas evangélicos de “religião da elite”, não é fonte de votos entre seus correligionários. Uma pesquisa recente do Pew Research Center mostra que aumentou o número de republicanos convencidos de que o homem habita a Terra só há alguns milhares de anos. 

O senador texano tem um colega parlamentar do Kentucky que se saiu com uma pérola: não suporta o racismo, mas acha que não se pode exigir que restaurantes sirvam frequentadores de qualquer cor. Afinal, a propriedade privada é sagrada sob qualquer circunstância.

Há também um ex-senador que tem um plano para enfrentar o terrorismo do Estado Islâmico. Ele acha que os Estados Unidos devem bombardear o grupo nos territórios do Iraque e da Síria o bastante para faze-los “voltar ao sétimo século”. Se eu fosse terrorista, fazia as malas para o Texas, onde a turma quer se armar para enfrentar o governo federal. Espere aí, o Estado Islâmico já fez isso. Acaba de assumir a responsabilidade pelo ataque a uma exposição de cartuns do Profeta Maomé no Texas, planejado, segundo um comunicado, por “dois soldados do califado” que acabaram mortos.

O que tem este elenco de místicos em comum? Eles almejam ter o dedo no botão nuclear. Já se declararam ou podem se declarar candidatos à presidência dos Estados Unidos, em 2016, pelo Partido Republicano.

A democracia americana sempre produziu figuras marginais que animam o circo eleitoral até os adultos voltarem para botar alguma ordem centrista na casa. Mas, este ano, não precisamos esperar pela chegada de um Donald Trump, cuja rala cabeleira cenoura blindada com laquê é o aspecto menos absurdo da sua pessoa. Se Trump voltar como candidato, vamos acabar comparando Tiririca a Winston Churchill. A margem virou mainstream no partido de Lincoln.

Se fosse para aderir à moda, poderia dizer que a posse de Barack Obama, em 2009, coincidiu com a liberação de estranhos vapores dos bueiros da cidades americanas que explicam a crescente propagação de ideias lunáticas. Mas não preciso comer um brownie de maconha para constatar que a chegada de Obama à Casa Branca destrancou a porta do hospício.

Alguém se lembra daquela cena no filme Tootsie, de 1982, dentro do antigo Russian Tea Room? Sidney Pollack, o agente de atores, descobre que a mulher na sua frente é de fato, seu cliente masculino, vivido por Dustin Hoffman. “Michael, eu suplico a você, vá procurar uma terapia”, diz, perplexo, o agente.

A cena me volta a memória, às vezes, quando um dos tais candidatos abre a boca. Se o eleitor americano estiver prestando atenção e mantiver a sobriedade, é possível que siga o conselho do filme. E vá procurar a Hillary Clinton.

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