Gramática escrita pelo desencontro

Literatura e reflexão marcam o trágico relacionamento do casal de Minuto de Silêncio, do alemão Siegfried Lenz

Régis Bonvicino, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

Acaba de sair a novela Minuto de Silêncio do ficcionista alemão Siegfried Lenz. O escritor nasceu em 1926, na cidade de Lick, hoje polonesa, na Prússia Oriental. A Alemanha perdeu, em 1945, essa província (estado), que lhe pertencia desde 1871, para a Lituânia, Polônia e para a então União Soviética. Acusado de se alistar no Partido Nazista em 1944, Lenz fugiu, depois da derrota de Hitler, para a Dinamarca, onde se tornou prisioneiro de guerra. Depois de solto, estudou inglês, filosofia e história literária em Hamburgo. Stella, a personagem central de Minuto de Silêncio é, exatamente, uma professora de inglês em um vilarejo do Mar Báltico prussiano. Lenz se associou, logo no início de sua carreira, ao Gruppe 47. Entre seus objetivos se encontrava o de divulgar a nova literatura alemã do pós-guerra, o de combater a cultura nazista e o de pregar uma prosa realista, do aqui e agora - alguma coisa próxima ao neorrealismo italiano, acrescento. Entre seus membros, cito os mais conhecidos do público brasileiro: Günter Grass, Hans Magnus Enzesberg e Peter Weiss. É significativo que Lenz tenha sido amigo do poeta Paul Celan (1920-1970), com quem trocou mais de cem cartas entre 1952 e 1961. Uma poética seca, armada, reflexiva, cortante, está na base da formação de sua prosa e pode ser verificada nesse Minuto de Silêncio, sua mais recente publicação.

O livro é divulgado como uma história de amor entre um adolescente de 18 anos e sua professora de inglês, o que não deixa de sê-lo, entretanto, é bem mais que isso. Prefiro chamá-lo de uma "gramática do adeus", como o definiu o crítico Boyd Tonkin, do jornal inglês The Independent. Lenz vale-se com precisão da técnica do flashback, por meio da qual, na verdade, mantém a atenção do leitor, que dificilmente consegue deixar sua "história" para depois. O flashback costuma ocorrer quando a personagem (no caso, o adolescente Christian) deseja lembrar a outra personagem (ou ao leitor) fatos relevantes que ocorreram em um tempo anterior, mesmo que recentes, à narrativa. Um exemplo clássico do uso dessa técnica encontra-se em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Stella sofre um acidente no navio Polarstern (Estrela do Polo); o final da novela a remete para seu início, tornando-a circular. Christian, filho de um pescador, retira pedras do fundo do mar - é um pescador de pedras!

Os cenários de Minuto de Silêncio são enxutos, minimalistas, sombrios: uma pensão na praia e uma pequena ilha (isolamento), onde - como nota Kristina Michaheles na introdução da obra - Stella e Christian se aproximam amorosamente após a avaria em um barco no qual navegavam. O domínio narrativo de Lenz faz a história em si terminar, aduzo, igualmente em um acidente de navio. Ou seja, o livro, em termos formais, é todo paralelístico.

Lenz mostra como, na Prússia Oriental do pós-Guerra, a cultura anglo-americana começa a se tornar hegemônica. Aluno e professora discutem A Revolução dos Bichos, de George Orwell. E ela o admoesta: "A Revolução dos Bichos é uma fábula aplicada, algo é dito por meio de outros, atrás das informações aparentes aparece uma verdade maior que poderíamos designar como a miséria da revolução" ou então "no momento em que se funda uma civilização começa a miséria. Ela começa com a formação de classes e a sede de poder do indivíduo".

O fim trágico da novela é antecipado de forma inusitada, em um diálogo de Christian com a personagem Sonja, com a presença de um retrato de Stella no ambiente: "A lupa foi passada de um para o outro, nossa busca foi bem-sucedida, nós confirmamos o êxito: "Um besouro, Christian, um pequeno besouro!". E eu acrescentei: "E uma mosca, ambos não prestaram a atenção quando a lágrima de resina caiu e agora vão ficar dentro do âmbar para sempre"". A relação amorosa do adolescente com sua professora se estabelece por meio da literatura e da reflexão - dado relevante a definir Minuto de Silêncio para muito além das banalidades da prosa realista que se produz no Brasil de hoje. Sua sutileza o projeta em um nível de excelência pouco visto. Os truques de composição não matam o seu "mundo". Essa "gramática do adeus" é igualmente a gramática do desencontro, do proibido, da impotência que vaza as pessoas após a Guerra. Há um jogo tenso e tramado entre as palavras inglesas "accident" e "misfortune". Esse é o fio condutor real de Minuto de Silêncio - obra-prima à disposição do leitor brasileiro.

RÉGIS BONVICINO É ESCRITOR, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ATÉ AGORA (IMESP), E DIRETOR DA REVISTA ELETRÔNICA SIBILA (HTTP://SIBILA.COM.BR)

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