Gramática da interpretação

Elogiado por Mozart e Beethoven, Ensaio Sobre a Maneira Correta de Tocar Teclado, de Carl Philipp Emanuel Bach, enfim traduzido no Brasil, abriu [br]caminho para o esplendor e a soberania do piano

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Bach é o pai, nós somos seus filhos. Se você pensou em Johann Sebastian, enganou-se. O importante reconhecimento de Mozart remete a Carl Philipp Emanuel, o segundo de seus 20 filhos, e refere-se explicitamente ao seu decisivo Ensaio Sobre a Maneira Correta de Tocar Teclado. Haydn também era enfático ao chamá-lo de "a escola de todas as escolas". Beethoven, Clementi e Czerny, de seu lado, recomendavam seu estudo minucioso a quem quer que desejasse mergulhar na arte de tocar instrumentos de teclado. Originalmente publicado em Berlim em 1752 e 1761, surge agora sua primeira e cuidada tradução para o português, por Fernando Cazarini.

Nos seis anos entre 1750, ano da morte de Johann Sebastian, e 1756, quando nasceu Mozart, foram publicados três dos mais importantes tratados musicais do século 18: Joachim Quantz escreveu o tratado de flauta, Carl Philip Emanuel Bach o de teclado e Leopold Mozart, pai de Wolfgang, o de violino. Não por coincidência, os dois primeiros eram empregados na orquestra da corte do rei Frederico o Grande da Prússia. Ele mesmo excelente flautista, celebrizou-se no mundo da música por causa do tema com que desafiou o velho Bach, em visita a seu filho Carl Philipp em 1747, a compor variações. Tempos depois, Johann Sebastian enviou-lhe a genial Oferenda Musical construída sobre o tema real.

A música parecia exigir o estabelecimento de gramáticas mais específicas para a sua prática, até então livre e quase oralmente transmitida entre as gerações de músicos. "O ensaio", escreve Cazarini no prefácio, "foi escrito num momento de transição entre estilos musicais (do barroco ao clássico), mas também do aperfeiçoamento construtivo dos instrumentos (do cravo ao fortepiano)." Bach contribuiu para a criação do empfindsamer Stil, ou estilo sensível, um novo estilo mais apartado do barroco de seu pai, que fugia da polifonia em favor da melodia acompanhada. "É o correspondente alemão para o estilo galante - e prenuncia não apenas o classicismo, como também o romantismo", completa o tradutor. Ele estranhamente intitula o capítulo 36 de Notas Que Passam (não seriam as velhas conhecidas "notas de passagem", notas estranhas ao acorde?). Em todo caso, deslize mínimo num trabalho de fôlego.

E por que seria necessário republicar hoje um tratado desses, técnico e com mais de 400 páginas? Por dois motivos simples: seu pioneirismo e atualidade. Foi o primeiro manual de música de teclado a levar em conta o fortepiano, instrumento que havia sido inventado no início do século 18 pelo italiano Bartolomeo Cristofori e ainda era visto com desconfiança na Europa. Bach apostou no novo instrumento. "Para pianistas e cravistas, a importância deste ensaio é fundamental, pois é o primeiro texto teórico que leva em conta as características do fortepiano, demonstrando que Carl Philipp estendia ao novo instrumento a ambígua palavra "Klavier"", escreve o pesquisador italiano Luca Chiantore em Historia de la Técnica Pianística (Alianza, Madri, 2001).

De fato, "Klavier" àquela altura remetia a muitos instrumentos, mas sobretudo a três: 1) cravo (em que o som se obtém quando pinças "beliscam" as cordas, não havendo controle de dinâmica); 2) clavicórdio (as teclas acionam pequenas peças chamadas tangentes, que percutem as cordas, permitindo controle de timbre e volume); 3) ao recém-chegado fortepiano (marteletes de feltro percutem as cordas, o controle de dinâmica e timbre é total, há muito mais volume de som).

E, embora prefira o clavicórdio, reconhece a superioridade do piano, instrumento pelo qual seu pai Johann Sebastian tinha simpatia. "O fortepiano, mais recente, quando bem construído, tem muitas vantagens, ainda que sua utilização exija estudo especial (...). Soa bem quando tocado sozinho ou em conjuntos não muito numerosos; no entanto, creio que um bom clavicórdio, exceto por sua sonoridade mais fraca, tem as mesmas vantagens de um fortepiano, podendo ainda expressar o portanto e o vibrato, pois, depois que se toca a tecla, pode-se ainda pressioná-la. Portanto, o clavicórdio é o instrumento por meio do qual melhor se pode avaliar um tecladista" (página 25).

Na verdade, a superioridade construtiva do fortepiano enterrou o clavicórdio e o cravo. Não foi coincidência o fato de a segunda metade do século 18 conviver com a progressiva consolidação da orquestra, que, ao crescer de tamanho, trocou aos poucos o cravista, "guardião do compasso", na expressão de Bach, pelo maestro na função de coordenar os músicos. As orquestras chegavam, no final do século 18, a um número variável entre 30 e 50 músicos. Ora, o cravista que só marcava a harmonia de base fazendo o baixo-contínuo ficou supérfluo.

O revolucionário fortepiano, de seu lado, era o instrumento ideal para se contrapor aos crescentes volumes sonoros das orquestras. "Surgia a figura do moderno solista, que converte o virtuosismo em ingrediente especial para satisfazer ao gosto de um público cada vez mais exigente", diz Chiantore. "Só um teclado capaz de novos e inéditos contrastes podia fazer frente a semelhante inquietude expressiva, e o piano foi o grande vencedor dessa época de crise."

Carl Philipp abriu caminho para o esplendor clássico de duas décadas depois apenas: entre 1780-1820 o piano transformou-se em ator principal da cena musical, com Haydn, Mozart e Beethoven e assumiu o trono de rei dos instrumentos, capaz de substituir até uma orquestra.

São poucos os textos conceituais no ensaio técnico. Mas eles são saborosos. "A maneira correta de tocar teclado depende principalmente de três fatores, tão interligados que nenhum existe ou pode existir sem os outros", diz Bach. "São eles: dedilhado correto, ornamentos precisos e boa execução." Quando não se segue isso à risca, alerta, "ouvem-se tecladistas que, com terrível esforço na maneira de tocar, acabam fazendo com que ouvintes esclarecidos venham a detestar o teclado".

"Não se deve perder nenhuma oportunidade de ouvir bons cantores; é assim que se aprende a pensar cantando, e sempre é bom começar cantando para si uma frase, para encontrar a boa execução." Além disso, recomenda aos alunos que estudem teclado e canto ao mesmo tempo, e ouçam "bons cantores", pois esta é uma maneira eficiente de se obter uma boa execução. "Todos os outros instrumentos aprenderam a cantar, só o teclado ficou para trás (...) de tal forma que já se começa a temer que não seja possível tocar no teclado algo lento ou melodioso (...) que só se deve tolerar esse instrumento como um mal necessário para o acompanhamento." Felizmente, ressalva, tais acusações, sem fundamento, "são contudo indícios da maneira incorreta de tocar teclado".

Imaginem que naqueles tempos Bach já reclamava do que chamava de "visão preconceituosa" segundo a qual "o valor de um tecladista consiste apenas na sua rapidez". Eles, diz Bach, "não oferecem nada à alma sensível do ouvinte". Pode-se ser tecnicamente fabuloso, mas "apesar de tudo isso, não se ter um toque claro, agradável e comovente". Quem toca bem "sabe preencher com os sentimentos mais doces o ouvido, e não o olho, e, mais que o ouvido, o coração; sabe levar o ouvinte aonde quiser".

Um último rosnado contra as pirotecnias técnicas hoje tão comuns: "Deve-se tocar com a alma, e não como um pássaro bem treinado."

Emoções. O músico não consegue provocar emoções no público se não estiver emocionado. "É indispensável que ele se coloque em todos os afetos que quer evocar nos seus ouvintes e dê a entender seus sentimentos, para poder compartilhá-los melhor. Em trechos doces e tristes, ele deve ficar doce e triste. Deve-se ver e ouvir isso (...) é com as fantasias de composição própria e de improviso que o tecladista melhor domina as emoções de seus ouvintes." E na página 137 diz, bem antes do poeta italiano Giacomo Leopardi, citado por Charles Rosen em seu recentíssimo Music and Sentiment, que "uma boa execução pode contribuir para realçar uma composição medíocre, valendo-lhe mesmo certa aprovação".

O recado final de Carl Philipp é uma profissão de fé no poder da música: "A natureza deu tal diversidade à música, que todos podem participar dela; portanto, todo músico deve, tanto quanto possível, satisfazer todo tipo de ouvinte."

O compositor mata a cobra e mostra o pau. Quem quiser deliciar-se com uma formidável amostra de suas sonatas para teclado, verdadeira confirmação prática da correção de seus ensinamentos, pode ouvir o CD recém-lançado pela Hyperion inglesa em que o jovem e muito talentoso pianista inglês Danny Driver interpreta seis delas com surpreendente adequação.

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