Graciliano pop star

Famoso pela austeridade, autor é tema da palestra de Milton Hatoum na Flip

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h09

A contradição provocou um espanto e criou um momento mágico - jovem estudante, Milton Hatoum estava acostumado a viver cercado de água. Era a década de 1960 e ele morava em Manaus, cidade decisivamente marcada pela caudalosa presença do Rio Amazonas. "Foi quando li Vidas Secas e descobri a terra árida, sem vida, sedenta - era um outro país, desconhecido para mim, uma nova geografia", conta ele, no momento em que prepara sua palestra sobre Graciliano Ramos que fará na abertura da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, no dia 3 de julho.

Ciente das características do homenageado, Hatoum elabora um discurso breve, enxuto, direto. Em conversa com o Estado, ele revelou alguns dos pontos que serão tratados. "Graciliano gostava de uma linguagem nítida, direta, que expressava a situação social, política e psicológica de seus personagens", observa o autor de Dois Irmãos. De fato, o escritor que nasceu em 1892, em Quebrangulo, interior de Alagoas, onde a água era pouca e a fome muita, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953, vítima de câncer no pulmão, era um homem austero.

O rigor, além das condições do ambiente em que viveu, talhou sua alma de forma permanente, influenciando sua obra, composta por observações colhidas de sua vivência pessoal e marcada pela rudeza da paisagem nordestina. Sob um estilo severo de escrever, Graciliano conseguiu um equilíbrio profundo entre a investigação psicológica e a situação social de seus personagens.

Foi o que constatou o jovem Hatoum, quando vivia em Manaus. Foi por conta dessa forte lembrança, que ele decidiu aceitar o convite da Flip para abrir o evento em grande estilo. Por conta disso, começou a reler os textos de Graciliano, que se resumem a poucos volumes. "A base de sua obra surge na década de 1930, quando a produção do romance social nordestino era muito grande. É o momento em que surgem autores que fazem denúncias, como José Lins do Rego e Jorge Amado. Graciliano, no entanto, seguiu outro caminho graças à sua linguagem focada no homem."

Hatoum nota que, como poucos, Graciliano percebeu as contradições da sociedade, especialmente a nordestina. "Basta observar a descrição que ele faz da fazenda em São Bernardo ou de Maceió em Angústia. Aliás, a cidade sempre esteve presente, mesmo quando ausente. Graciliano notou que a modernização não foi igualitária e provocou mais contradições do que mudanças estruturais."

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