Graciliano político

Milton Hatoum abre a Flip e, em entrevista, faz relação entre textos do escritor e momento do País

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2013 | 02h12

O olhar arguto e preciso de Graciliano Ramos sobre as mazelas brasileiras inspirou a conferência de abertura da 11.ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, proferida por Milton Hatoum, ontem à noite, na cidade fluminense. Em discurso que durou cerca de uma hora, o cronista do Caderno 2 enumerou os fatos pessoais do escritor alagoano que foram decisivos para a confecção de sua obra - e que também explicam muitos dos atuais problemas nacionais.

"Graciliano encontrou um equilíbrio muito forte entre o social, o político e o psicológico", disse o autor para uma plateia que praticamente lotou a Tenda dos Autores, repetindo o que afirmara ao Estado à tarde, quando tratou de seu mais recente livro, Um Solitário À Espreita (Companhia das Letras), uma seleção de crônicas, a maioria publicada no Caderno 2. Nessa conversa exclusiva, ele notou também a familiaridade do texto de Graciliano Ramos com os movimentos sociais que vêm chacoalhando o País. "A forma com que ele trabalhava a linguagem ao tratar das grandes questões da realidade brasileira, promovendo a dissolução entre o subjetivo e o objetivo, sempre me fascinou muito", disse.

Hatoum voltou a lembrar das atitudes do Graciliano político, ou seja, do período em que atuou de forma irrepreensível como prefeito de Palmeira dos Índios, no fim da década de 1920. "Ele sempre manteve uma conduta exemplar como funcionário do governo e, como autor, mostrava ainda como a ética está intimamente associada à estética."

Como bom cronista, Hatoum sai às ruas em busca de histórias inspiradas. Gosta particularmente de frequentar o centro de São Paulo e, em um determinado dia, acompanhou a intensa movimentação que acontece na Estação da Luz por volta das 18 horas. "Basta ver aquela massa se espremendo, lutando por um lugar no trem, no metrô ou no ônibus, para se entender um pouco a origem dessas revoltas sociais", observa.

Para ele, as vantagens conquistadas nos últimos anos revelam-se agora insuficientes. "O brasileiro se tornou consumista sem cidadania, pois não tem direito a escola, transporte público, saúde em condições aceitáveis. A luta saltou da tarifa de ônibus para a tarifa da qualidade de vida."

Hatoum lembrou-se ainda de uma frase que figura em seu romance Dois Irmãos: "Ninguém se liberta só com palavras". "Não acredito totalmente nisso, mas já é um primeiro passo", acrescenta ainda.

Na palestra da noite, o escritor amazonense lembrou que Graciliano tinha a fama de ser um homem áspero como um cacto, mas que sempre revelava seu humanismo, especialmente pela literatura. Ao analisar a escrita brasileira produzida naquela década de 1930, Graciliano, que estreou com Caetés (1933), chegava a um contexto de mudanças políticas e sociais, que influenciava todos os autores. "A terra estava vinculada à vida da maioria dos personagens, mesmo com um processo evolutivo acontecendo", disse Hatoum, lembrando que Graciliano, por meio de seus romances e cartas, exibia uma lúcida noção dos principais problemas, especialmente os educacionais. "Em suas tramas, acontece muitas vezes o confronto entre letrados e analfabetos."

E, para atingir tal precisão, Graciliano conseguiu a perfeita alquimia entre linguagem clássica e popular - a riqueza da primeira permitia abarcar toda a aparente limitação da segunda.

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