Graciela Borges, um mito latino no rio

Atriz argentina veio mostrar o novo filme de Daniel Burman, Dois Irmãos

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

Saque las gafas, señora, por favor. O repórter pede a Graciela Borges que tire os óculos escuros, para ser fotografada em toda a sua beleza madura. Ela se desculpa, diz que não dá. "Mire." Ela contraiu uma forte gripe, os olhos estão inchados, e vermelhos, como se tivesse conjuntivite. Essa mulher é um mito latino. Jovem, foi estrela de Leopoldo Torre-Nilsson nos anos 1960. Madura, virou madrinha da nova geração do cinema argentino e Lucrecia Martel criou para ela um papel inesquecível de matriarca em La Ciénaga, O Pântano.

Graciela Borges está no Rio, participando do festival. Veio mostrar o novo filme de Daniel Burman, Dois Irmãos. Faz um personagem à sua medida, uma mulher excêntrica que valoriza, acima de tudo, o próprio sucesso e que precisa chegar a bom termo com o irmão gay, a quem nunca respeitou (e a quem relegou a tarefa de cuidar da mãe enferma). Apesar da gripe, e dos óculos escuros, a diva está de excelente humor.

Talvez porque o repórter tenha lhe contado uma pequena história. Nos arquivos centenários do jornal Estado, há uma foto - veja aí em cima, à direita - que mostra a jovem Graciela, no Rio, com o diretor Leopoldo Torre-Nilsson, quando venceram a Gaivota de Ouro no 2.º FestRio, em 1969, com Martin Fierro. O repórter descreve o paletó branco de Torre-Nilsson, diz que Graciela também estava de branco. Ela recolhe a madeleine e inicia sua viagem, recuperando, proustianamente, o tempo perdido. Graciela se lembra - do Rio, há mais de 40 anos, de Torre-Nilsson e de Alfredo Alcón, que fazia o herói argentino por excelência, o "gaucho" do poema épico de José Hernandez.

Pertencente a uma geração em que as garotas, aos 14 anos, ainda brincavam de bonecas, com esta idade ela já estava frente às câmeras, escolhida para fazer uma colegial em Una Cita con la Vida (1958). O diretor era Hugo Del Carril, que incorporava procedimentos neorrealistas a seus melodramas de sucesso. Aos 16, Graciela fez Pele de Verão, seu primeiro Torre-Nilsson e o primeiro encontro com Alfredo Alcón. Ele faz um doente terminal. Graciela é a chica que a família contrata para alegrar o fim de vida do rapaz. Numa cena, eles estão na praia. Mar del Plata no inverno. O diálogo justifica o título - são como a pele do verão, que precisa cair para se renovar.

"Ay, qué bárbaro", lembra Graciela. O filme fez carreira internacional, ela foi parar nos EUA com o diretor e o elenco, discutindo o filme nas universidades. "Numa delas, fui aplaudidíssima ao entrar num salão repleto de jovens. Achei que estavam me confundindo, mas não. Pele de Verão havia sido adotado como objeto de estudo num curso sobre a cultura latina. Eles também podiam repetir o diálogo do filme de cor." Só isso já seria suficiente para fazer a cabeça da jovem Graciela, mas ela não se esquece do crítico que disse, do seu corpo, que ele merecia ser imortalizado em pedra.

O repórter aproveita a deixa - não foi imortalizado na pedra, mas "en la pantalla" (na tela). Ela ri, diz que o cinema sempre a tratou bem. Torre Nilsson ensinou-lhe a amar a câmera, "o que não foi pouca coisa". Também nos anos 1960, outro grande, Raul de la Torre, ofereceu-lhe papéis importantes e por Crónica de Una Señora, ela ganhou prêmios até no exterior. Como a menina de Hugo del Carril virou uma grande atriz? "Amadurecendo, aproveitando as lições dos veteranos, não sendo burra." Acrescenta - "O tempo nos ajuda, se a gente absorve tudo o que a experiência nos ensina."

Lucrécia Martel foi outro encontro decisivo. "É muito talentosa, muito respeitosa e o papel que me deu em O Pântano foi um regalo." Elogia o cinema argentino atual, mas faz a ressalva. "Os filmes saem melhores quando os jovens diretores falam daquilo que conhecem." Elogia o cinema brasileiro. "Tem a cara do país de vocês, que é continental. Não há um cinema brasileiro, existem vários." Lamenta - "Pena que estejamos separados por barreiras como a distribuição. No ano passado, chegaram quantos filmes brasileiros à Argentina? Três? Precisamos estreitar esses laços."

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