Graças ao sonho

A infância lhe rendeu memórias para fazer um de seus mais belos CDs, que lança hoje em SP

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Após alguns toques no telefone, breve suspense, alguém atende. Não é o Milton. "Sabe o que é? Ele recebeu uma visita que estava aqui desde o almoço e foi embora há pouco", explica gentilmente um rapaz. "Era o Wayne Shorter", diz. "O Milton precisa descansar. Você pode ligar daqui a uma hora?" A missão de entrevistar Milton Nascimento, já cercada de expectativas, ganhou ares de interferência. Como manter o fôlego para atender a reportagem do Estado depois de longa e proveitosa tarde ao lado de um dos maiores gênios do jazz? Milton não pareceu cansado, nem incomodado. Foi prestativo, queria falar do show que faz hoje à noite no palco da Via Funchal, quando irá mostrar as músicas de seu disco mais recente, ...E a Gente Sonhando, lançado no ano passado.

Antes, porém, fez questão de falar sobre o amigo de longa data. "Foi por causa de Wayne Shorter que eu comecei a ser convidado por artistas de vários lugares do mundo", conta. Juntos, eles gravaram em 1974 Native Dancer, referência na fase elétrica do saxofonista americano. O jazz que, segundo ele, nunca foi um acaso em sua vida. "Quando comecei a compor, eu pensei que deveria estar aberto a tudo que viesse de música, religião e política."

Tradicionalmente cosmopolita, a produção de Milton se voltou para seu próprio passado em seu último trabalho. O lar afetivo Três Pontas, no sul de Minas, onde passou parte da infância e da juventude, é o que abastece as 16 faixas de ...E a Gente Sonhando. Com o violonista Marco Elízeo, também trespontano, ele foi apresentado a jovens expoentes da música da cidade, ainda na época do DVD Pietá. Vinte cinco deles, entre cantores, compositores e instrumentistas, foram escolhidos para gravar o CD. "Três Pontas é um canteiro de músicos. Cada vez que você fica dois meses sem aparecer, quando volta já tem um monte de criançada tocando, e tocando bem", conta orgulhoso.

Foi na cidade, ainda menino, que Milton aprendeu a cantar, "nas festas de rua e quermesses", lembra. "Eu acompanhava minha mãe com a sanfona." O talento, logo percebido pela vizinhança, tinha especial vocação para o improviso. "Quando eu tinha 6 anos, eu contava histórias para outros meninos que apareciam lá em casa. Era como um filme de Walt Disney, que tinha narração e de repente aparecia uma música. Eu inventava essas canções."

O início de tudo. O mesmo cinema que o inspirou a distrair a molecada, foi quem o fez acreditar que deveria compor, justamente após uma sessão de Jules et Jim, clássico da nouvelle vague. "Quando eu e Marcinho (Márcio Borges) deixamos o cinema, eu bati no ombro dele e falei: "Vamos pra sua casa, vou pegar um violão e você um caderno e uma caneta. Vamos começar a compor hoje"."

Milton não esconde que ainda sonha em ser chamado para criar a trilha sonora de um longa, algo inédito em sua carreira. "Eu nunca vou deixar de querer isso." Já para sessão desta noite, musical e com grande elenco, ele promete uma imersão pelas montanhas e estradas de uma cidade que mais parece a New Orleans de Minas Gerais.

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