Graças a Les Paul

Jeff Beck faz em DVD uma demolidora homenagem ao seu mestre

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Jeff Beck olhava para os lados no início de 1980 e via um grande deserto. Era como se toda a revolução de sons e costumes testemunhada por ele desde o dia em que perguntou a sua mãe de onde saíam aqueles solos de guitarra e ela respondeu que eram de Les Paul tivesse sido tragada para algum lugar desconhecido. Beck lamentou: "Nada nos anos 80 foi feito com substância. Toda a sabedoria dos anos 50 e 60 estava perdida." Até que, em um inspirador programa de TV, Jeff Beck viu um cara tocando uma caixa de bateria, um outro maluco espancando um baixo acústico e um terceiro de topete nas alturas cantando Twenty Flight Rock e solando uma guitarra descomunal. Eram os Stray Cats fazendo voltar, para Jeff Beck, os bons tempos de Les Paul.

Não é fácil identificar Les Paul em Jeff Beck. O primeiro, americano, criador de uma guitarra com corpo sólido, de mil truques e um estilo que seria absorvido para sempre pelo rock and roll, tinha dedos longos que subiam e desciam em frases limpas e ligeiras o bastante para todas as semanas ter a seus pés as plateias do pub Iridium, em Nova York. O segundo, inglês, fez sua música crescer com o tempo. Começou no blues, como os vizinhos ingleses Eric Clapton e Jimi Page, mas se libertou de todos os clichês quando apostou em um novo jeito de tocar o instrumento. Sua mão direita raramente segura uma palheta e seu instrumento jamais repete a mesma palavra. Fusion, experimental, jazz, insano, foi chamado de tudo um pouco nos últimos 20 anos. E agora volta aos tempos de Les Paul em um esforço até físico para fazer a homenagem mais relevante que o inventor já recebeu de um "súdito".

Foi em 9 de junho de 2010, quando Les Paul completaria 95 anos se não tivesse morrido um ano antes por complicações de uma pneumonia. Na plateia: David Bowie, Steven Van Zandt, guitarrista de Bruce Springsteen, e duas centenas de fãs, alguns vindos até do Japão com o nome de Jeff Beck nas costas. No palco: Beck à frente de uma cozinha de baixo acústico e bateria, o jovem cantor rockabilly inglês Darrel Higham e sua inacreditável mulher, também vocalista, Imelda May. Como convidados especiais: Brian Setzer, ex-Stray Cats, o homem salvou os anos 80 de Beck das ruínas; o cantor soul da velha guarda Gary U.S. Bonds; e o instrumentista jazz da novíssima guarda, Trombone Shorty.

Beck escolheu músicas não necessariamente gravadas ou compostas por Les Paul, mas temas que usaram seus efeitos e que fizeram parte de seu universo. Train Kept a Roolin", Sitting on Top of the World, Vaya Con Dios, Tiger Rag, Peter Gunn... Um dos efeitos, talvez o mais curioso, aparece em várias cantadas por Imelda May. Les Paul, um dos pais da guitarra, foi também o avô do playback. A partir do momento em que Imelda canta How High The Moon - que Beck diz ser a sua preferida na entrevista dos extras - algo faz a plateia procurar por mais gente no palco: onde estão as outras cantoras? Afinal, de onde saem aquelas vozes abertas em intervalos de terças, quintas, sétimas? É o playback inteligente, o overdubing. Em vez de substituir a voz do cantor, o efeito a deixa mais rica. O problema é que Imelda usa o recurso em sete músicas seguidas, e mesmo a genialidade de Les Paul pode cansar.

Entrevista. A parte dos extras, aqui, pode ser assistida antes do show. Jeff Beck fala da apresentação, de como conheceu Imelda e Darrel, mas também de assuntos sobre os quais muitas vezes se negou a comentar a jornalistas. O tema Eric Clapton, que foi substituído por Beck no sessentista Yardbirds, parece ainda um incômodo. Os jornais da época diziam que um não suportava o outro, o que não parece mais apenas invenção. "Você quer mesmo falar dele?", pergunta Beck, erguendo os óculos e sorrindo diante da jornalista. "Eu o substitui nos Yardbirds. As meninas que esperavam por ele um dia me viram no show e eu disse que só iria tocar um solo de guitarra. Toquei, elas adoraram e eu falei "E agora, Clapton?" A relação dos dois hoje, no entanto, seria "genial", segundo Beck. E uma distância maior entre o fã Jeff Beck e o ídolo Les Paul se coloca quando a jornalista quer saber quem, na opinião do guitarrista, teria condições de ser um novo Jeff Beck. Ele leva as mãos aos ouvidos e solta duas frases com uma falta de humildade que Les Paul não teria: "Não quero que ninguém me desafie. Não há muitos guitarristas por aí melhores do que eu." E pior que, revendo o DVD, ele tem razão.

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