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Luis Fernando Verissimo
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GPS

E tem aquela do cara que conversava com seu GPS. Instalara um GPS no carro porque precisava fazer viagens pelo interior do Estado, muitas vezes em território desconhecido, e o GPS lhe mostrava os caminhos a tomar. Mostrava e dizia, pois o GPS falava. Tinha uma voz feminina, um pouco autoritária, mas não desagradável.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 02h00

– Em 700 metros, vire à direita, e logo em seguida à esquerda.

Quando o homem se enganava e não seguia suas instruções, a voz não perdia a calma. Dava novas instruções para corrigir o erro, pausadamente e sem fazer comentários. E o homem nunca deixava de se admirar com aquilo: de algum lugar do espaço um satélite o seguia, e uma voz etérea – Como? Saindo de onde? – lhe dizia o que fazer, baseada na informação do satélite. E o satélite via tudo, e nunca errava. Era como um deus em órbita estacionária da Terra. 

Mas um dia o homem discordou do satélite. Depois de ouvir as instruções da voz, disse:

– Não mesmo.

E ouviu a voz dizer:

– O quê? 

– Esta estrada eu conheço bem, e sua direção não está certa – disse o homem, antes de se dar conta que a voz estava dialogando com ele. A voz estava dialogando com ele!

– Vai por mim – disse a voz.

E o homem, apavorado (“Devo estar ficando louco”, pensou), obedeceu, e descobriu que o satélite tinha razão. O caminho indicado era mais curto do que o que ele conhecia. E quando chegaram ao destino desejado mais cedo, pelo atalho, a voz disse:

– Viu só? 

*

O homem e a voz passaram a conversar. Ficaram íntimos. Agora, a voz terminava cada instrução com um “querido”. E tornou-se confidente do homem, que lhe contava sua vida e pedia sua orientação. Era muito sozinho. Gostava de uma moça, mas ela ainda não sabia. Ele deveria declarar-se?

– Declare-se – mandou a voz.

– Será?

– Vai por mim.

Ele estava descontente no trabalho. Tinham lhe oferecido outro cargo, em que não precisaria viajar tanto. Deveria aceitar? Sim, disse a voz. Ele estava ficando estressado com tantas horas sozinho nas estradas. 

Noutro dia ele declarou que sua vida era uma porcaria e ele não queria mais viver.

– Vire para a esquerda, agora! – ordenou a voz.

– Peraí. Se eu virar para a esquerda vou invadir a outra pista.

– E ser amassado por uma jamanta, certo. Não é isso que você quer?

Depois a voz do GPS mandou:

– Daqui a 200 metros, vire para a direita.

– Onde nós estamos indo?

– Um hospital psiquiátrico que eu conheço. Esta nossa conversa é obviamente uma alucinação sua. Você precisa de tratamento.

– Você acha?

– Vai por mim. 

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