TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

'Governos já entendem cultura como valor econômico', diz secretário-geral da OEI

À frente da Organização dos Estados Ibero-Americanos, Mariano Jabonero acredita que a junção do Ministérios da Cultura e da Educação, proposta por Jair Bolsonaro, não trava investimentos ao setor cultural

Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2018 | 19h27

À frente da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) - cuja atuação em educação, ciência e cultura na região completa 70 anos em 2019 -, Mariano Jabonero observa o momento político com tranquilidade. “O importante no caso da América Latina e, portanto, também do Brasil, é que a democracia está funcionando. Mesmo com mudanças e com governos dos mais diferentes, há temas como educação e cultura se mantiveram entre as principais preocupações”, assegura.

Secretário-geral da organização desde julho, o espanhol, com formação em Filosofia e Educação, ainda não se encontrou com o presidente eleito Jair Bolsonaro, mas acredita não haver grandes implicações para os investimentos em cultura, caso se confirme a junção dos Ministérios da Cultura e da Educação, uma das propostas do novo governo. Em entrevista ao Estado, Jabonero argumenta que os governos da região já entendem a cultura como valor econômico.

Jabonero veio ao Brasil participar da mesa de debates sobre o fortalecimento de redes culturais no evento Mercado das Indústrias Criativas Brasileiras (MicBR), promovido pelo Ministério da Cultura. Leia abaixo a entrevista completa.

Algo muda na relação entre Brasil e OEI após a eleição de Jair Bolsonaro?

A OEI tem 23 países-membros com os quais trabalha igualmente. O que já fizemos foi enviar uma carta ao presidente eleito, dizendo-lhe parabéns pela sua eleição como presidente e nos colocando disponíveis para falar e tratar da agenda de trabalho. A OEI tem uma agenda global, comum em todos seus países e aprovada por eles. E em cada país temos um convênio para trabalhar nas coisas consideradas prioritárias para aquele governo. No caso do Brasil e seu novo governo, conversaremos e definiremos uma agenda que seja a mais interessante e de maior preocupação para o País.

A possibilidade de junção dos Ministérios da Cultura e da Educação preocupa de alguma forma? Há impactos negativos para algum desses setores?

É um tema tradicional, mas não tem grande implicação. Em todos os países da região, houve momentos em que foi chamado de "Ministério da Educação", em outros "Ministério da Educação e da Cultura", "Ministério da Educação, da Cultura e do Desporto", ou, ainda “Ministério da Inovação, Educação e das Universidades." Houve países onde os ministérios da educação mudaram seus nomes 15 vezes, seja por razões políticas, econômicas ou culturais.

Mas existe a percepção de uma guinada conservadora na política global. Há interferência para a atuação da OEI? Como o sr. observa esse momento?

Observo com certa tranquilidade. São ciclos históricos, que tem a ver com os processos históricos e suas consequências. O importante no caso da América Latina e, portanto, também do Brasil, é que a democracia está funcionando. O que asseguro é que mesmo com mudanças e com governos dos mais diferentes há temas que se mantiveram entre as principais preocupações, como a educação, a cultura, o emprego e a saúde. E se mantiveram as políticas básicas. Neste momento, mesmo com governos tão distintos dos 23 países, existe um plano de trabalho aprovado e há um grande consenso de que trabalhar juntos pela educação e pela cultura.

Então, independentemente das diferenças ideológicas dos governos, os países têm trabalhado pelas mesmas causas?

Sim. A preocupação com esses temas existe. O que acontece é que cada um tem sua maneira de encarar cada desafio. Um exemplo é na questão da educação superior. Em Cuba, a maioria das universidades é pública e, no Chile, a maioria é privada. No entanto, os dois, como parte do grupo da OEI, se reúnem e discutem ações para trabalharem em conjunto.

A agenda da OEI prevê impulsionar a economia criativa e atrair investimentos para a cultura. Como vencer a resistência e fazer a sociedade perceber a cultura como potencial atividade econômica ?

A cultura ibero-americana é um cesto de muitas cores e culturas tecido com muitos fios diferentes, que dão enorme valor à região por sua diversidade cultura. Com o avanço dos meios digitais, o que até pouco tempo só poderia ser presencial tem, agora, enorme potencial de crescimento. Tudo isso conduz ao conceito economia laranja, como é chamada a atividade produtiva cultural.  Os governos já entendem que a cultura é um valor econômico e um gerador de empregos muito importante, em especial nesta região. Estive recentemente com o presidente da Colômbia Iván Duque e falamos justamente sobre como o país tem enorme potencial econômico com sua produção cultural. Qual esse potencial? A música, o teatro, o cinema, a televisão, a literatura... Esses elementos são parte importante para a economia dos países do grupo.

Nos últimos anos tivemos exemplos da falta de investimento em cultura, como os incêndios do Museu da Língua Portuguesa (em São Paulo, em 2015) e mais recentemente o Museu Nacional do Brasil (no Rio de Janeiro, em setembro de 2018). Como esse histórico influencia o discurso de busca por investimento ao patrimônio cultural?

É uma questão comum a todos os países. A discussão sobre patrimônio cultural teve pouco importância até pouco tempo atrás. Apesar de que ter relação com a estrutura social e econômica, a construção sobre um patrimônio material e imaterial - de que é  bem ativo, que tem valor e é atrativo - para o país é recente. Isso no Brasil,  na Europa, na África, em todo lugar. São linhas de políticas que começaram há 15 anos, que vão passando e que produziram situações lamentáveis, que fazem que um patrimônio seja perdido. Nessa linha, o que nós fazemos é apoiar os governos para que haja cuidado e se difunda coloque valor sobre o patrimônio cultural. No caso do museu aqui [Museu Nacional do Brasil, que teve cerca de 90% do acervo destruído em um incêndio no dia 02 de setembro], manifestei ao ministro da Educação, Rossieli Soares, o apoio da OEI para colaborar com esse processo. Uma situação como essa, mesmo num museu que tem condições de segurança, por acidente, pode acontecer. Mas, aos poucos, em todas as partes se entende que o investimento na preservação cultural é algo importante.

Mais conteúdo sobre:
Ministério da Cultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.