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Governador, cultura pode conduzi-lo à imortalidade

Minhas caras autoras, há uma nuvem ameaçadora no ar que provocará mais estragos que as inundações do Rio e São Paulo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2019 | 02h00

A chamada de capa, As Escritoras em Cena, me atraiu e saí da Livraria da Vila levando a revista Vila Cultural. Sentei-me na confeitaria de Marilia Zilberstein – fica em frente – pedi bolo e chocolate e mergulhei no que pensam e escrevem algumas autoras que estão em evidência e plena atividade. 

São elas Aline Bei (O Peso do Pássaro Morto), Ana Martins Marques (A Vida Submarina e O Livro das Semelhanças), Carol Bensimon (O Clube dos Jardineiros de Fumaça), Giovana Madalosso (A Teta Racional e Tudo Pode Ser Roubado), Jarid Arraes (de Juazeiro do Norte, ela tem mais de 60 títulos na literatura de cordel, seus livros mais recentes são Um Buraco com Meu Nome e As Lendas de Dandara e Heroínas Negras Brasileiras), Lucrécia Zappi (Acre e Onça Preta) e Natalia Polesso (Amora, Recortes para Álbum de Fotografias Sem Gente e Coração à Corda). Para elas escrevo esse bilhete.

Conheci Aline Bei e me encantei com sua prosa e jeito de encarar nosso ofício, em uma prévia do Prêmio São Paulo em um encontro coletivo realizado na Biblioteca São Paulo, considerada hoje uma das melhores do mundo e algumas vezes finalista do primeiro lugar no ranking mundial. Aqui, apanho fragmentos de duas delas, uma vez que me alegrei com a garra com que enfrentam as agruras, mas acima de tudo desfrutam o prazer de escrever. Bem diz a revista que elas são hoje “ao mesmo tempo uma amostra e uma demonstração da diversidade de vozes que, para muito além da questão do gênero, merecem ser lidas com toda atenção e apreço”. 

Tive alegria imensa em ver esse grupo, que não é grupo, talvez seja melhor dizer geração de mulheres entrando com força na literatura brasileira e começando a ter visibilidade. Talvez as coisas estejam mudando. Críticos e mídia estão abrindo a visão? Enxergando?

Fiquei siderado com Carol Bensimon ao ouvi-la afirmar que ao escrever “se muda para dentro do seu livro”. Poesia pura, entrega total, realmente habitamos o livro enquanto escrevemos, somos ele, carne, osso, coração, dor e alegria. Eu, que tenho quase duas vezes a idade dela mais dez anos e percorri o que foi possível neste Brasil, me surpreendi ao ver que posso dizer o mesmo que ela: “Às vezes me sinto esmagada pelas notícias. Isso me leva a muitos questionamentos sobre como representar esse Brasil na literatura se ele parece tão absurdo na vida real”. Acontece, Carol, que a literatura realista brasileira, assim que escrita hoje, se transforma em absurda, alegórica, fantástica. A anormalidade se tornou realidade, como Euclides da Cunha definiu a Guerra de Canudos. Pois não dizem que meu romance Deste Terra Nada Vai Sobrar é ficção científica? Bobagem, é puro realismo... Mas o que vem a ser realismo?

Aproveito o gancho e passo para Natalia Borges Polesso. Ela admite que “a gente vive um tempo louco que nos inunda com urgências e, como efeito no meu corpo, causa uma ansiedade quase paralisante. O desafio é não cair na inércia. O desafio é seguir no meu tempo. O prazer é compartilhar”. Indagada como definiria a mulher escritora no Brasil neste momento, respondeu: “Não sei. Estamos vivendo um momento muito difícil... Talvez se eu pudesse escolher algumas palavras para nortear meu caminho daqui para a frente elas seriam paciência e resiliência. Ah, não confundir paciência com passividade”.

Ainda voltarei a esse grupo, mas é que acabo de receber um comunicado importante. Minhas caras autoras, há uma nuvem ameaçadora no ar que provocará mais estragos que as inundações do Rio e São Paulo. O governo do Estado cogita reduzir mais as verbas já exíguas para a Cultura, afetando o Prêmio São Paulo de Literatura, os trabalhos das Bibliotecas Villa-Lobos e de São Paulo e mais de 700 bibliotecas, além de exterminar com as Viagens Literárias, que já levaram cerca de mil escritores ao interior do Estado. Fiquemos em vigília. Tomara o governador se lembre de que incentivar e desenvolver cultura conduz à eternidade.

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