"Gota d´Água" ganha montagem de Gabriel Villela

Em breve, serão duas as versões de Medéia nos palcos paulistanos. A adaptação de Antunes Filho da tragédia de Eurípides já está em cartaz no Sesc Belenzinho. E no dia 15 de setembro estréia na casa de shows Tom Brasil a Medéia brasileira, Gota d´Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, sob direção de Gabriel Villela. Nesta versão, um musical grande sucesso de público na década de 70, Medéia é Joana, uma moradora de um conjunto habitacional da periferia que mata seus filhos após ser abandonada pelo sambista Jasão, que resolve casar-se com a filha do proprietário da vila onde moram.Gota d´Água não é o único espetáculo na agenda de Villela. Assim que o musical estrear, ele parte para a Amazônia, onde planeja realizar uma grandiosa montagem de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. "Quero encenar esse espetáculo na floresta amazônica, adaptando a mitologia original - duendes e fadas - para os mitos dos povos da floresta.""Com Gota d´Água, completo assim minha trilogia buarquina", diz Villela. As duas primeiras foram Ópera do Malandro e Os Saltimbancos. Villela assumiu a direção artística do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) no início do ano passado. Em seus planos, a criação de uma companhia permanente de repertório musical. Na ocasião, o empresário Marcos Tidemann, que arrendou o teatro tombado pelo Patrimônio Histórico e investiu R$ 4,4 milhões em sua reforma, declarou em entrevista: "Não estou preocupado com resultados imediatos. Estamos investindo a longo prazo e só vamos começar a colher os frutos em 2001."O empresário não precisou esperar tanto. Sob direção de Villela, Ópera do Malandro, de Chico Buarque e Edu Lobo, estreou em setembro daquele mesmo ano, com grande sucesso de crítica e público. Em março, foi a vez de estrear o musical infantil Os Saltimbancos, ainda em temporada no TBC, que vem conseguindo a proeza de realizar até três sessões diárias para escolas às quintas e sextas-feiras, além de manter sessões duplas aos sábados e domingos abertas ao público.Parceria - Gota d´Água estréia na Tom Brasil, inaugurando a parceira do TBC na produção do espetáculo que tem o patrocínio da Embratel. Em janeiro, os três espetáculos serão apresentados em repertório no Rio, no ATL, no bairro da Barra da Tijuca. A Medéia brasileira encerra o vínculo do mineiro Villela com o TBC. O diretor desligou-se da direção artística este ano. "Não gosto de muita segurança. Sou um estrangeiro - ´Minas não há mais´ -, um andarilho e estou sempre pronto a experimentar algo novo."Em pleno processo de criação, Villela já definiu algumas linhas de sua concepção. "Quero contrapor planos temporais e de linguagem. Contrapor a Joana do cortiço com a Medéia da tragédia grega. Da Europa, trouxe várias máscaras teatrais gregas e italianas e xales coloridos, cujos grafismos remetem às túnicas gregas. Não sei ainda exatamente como será. Talvez eu crie uma atuação simultânea, no fundo do palco, numa espécie de remissão à Grécia, origem dessa tragédia. Talvez eu contraponha três momentos teatrais: a tragédia grega, a Commedia dell´Arte e o teatro brasileiro contemporâneo."A Companhia Estável de Repertório tem atualmente 25 atores no elenco, todos recebendo salários mensais, mesmo durante os ensaios. Entre eles, dois convidados especiais para a montagem de Gota d´Água: Cleide Queiroz, que viverá o papel de Joana, e Jorge Emil, o intérprete de Jasão. "Cleide é uma atriz de grande presença cênica, uma mulata bonita, que não tem no cenário teatral um reconhecimento que seu talento merece. Tenho certeza de que ela vai fazer um belíssimo trabalho", diz Villela.Já Emil ficou conhecido em São Paulo por sua ótima atuação como o protagonista da montagem mineira de Ricardo III, de Shakespeare, que integrou a mostra oficial do Festival de Curitiba, no ano passado, e excursiou por vários Estados do Brasil. "Fiquei muito feliz com o convite. Ainda estamos em processo de ensaios, difícil falar muito do espetáculo", diz Emil, mas antecipa que pretende continuar carreira em São Paulo."Acho muito interessante a mistura de sotaques no elenco da companhia que tem 13 atores de outros Estados do Brasil", diz Villela. Sotaques que ele pretende preservar em cena. "Historicamente, o TBC foi um ponto de encontro, um teatro onde se misturaram os sotaques dos diretores estrangeiros dos atores paulistanos e cariocas que vieram integrar o elenco fixo da companhia mantida por Zampari. Sem ter a pretensão de comparar, também temos os nossos encontros.""Deixa em paz meu coração/ que ele é um pote até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção, faça não/ pode ser a gota d´água." Os versos da canção criada especialmente para a peça são bastante conhecidos. Mas Villela quer mais. Deve acrescentar novas músicas às compostas para a peça, porém, todas de Chico Buarque.Logo depois da estréia de Gota d´Água, o diretor pretende instalar-se por alguns meses em Manaus. A convite da Secretaria de Cultura do Amazonas, Villela foi a Parintins acompanhar a festa do boi. "É um erro pensar que se trata de um carnaval. O Boi de Parintins é como um grande auto-sacramental do século de ouro espanhol. Um auto deslumbrante em sua mitologia e maquinaria. Numa cidade onde não há sequer uma biblioteca, há centenas de artesãos dedicando-se a uma criação exuberante em todos os sentidos", entusiasma-se.A mesma Secretaria de Cultura acenou com a possiblidade de realizar um festival de teatro brasileiro, que teria duração de um mês - entre 15 de novembro e 15 de dezembro. Villela e o cenógrafo J.C. Serroni estariam entre os curadores do evento. "Gostaria de realizar um festival com 2/3 de artistas e 1/3 de massa crítica. Levar para Manaus críticos e ensaístas para promover uma grande reflexão sobre o teatro."Outro sonho é realizar uma montagem amazônica de Sonho de Uma Noite de Verão. Amazônica, neste caso, não é um referência geográfica, mas cultural. "Seria verdadeiramente uma montagem na floresta amazônica. Quero conhecer a mitologia dos povos amazônicos para transformar as fadas e duendes do original de Shakespeare em deuses da floresta. Quero ter um índiozinho no papel de Puck. No original de Shakespeare, Puck é um duende moleque, que se diverte em enfeitiçar enamorados, provocando a discórdia entre casais.Se tudo der certo, Villela não vai descansar numa rede armada à beira do rio. No início de 2002, parte para Portugal a convite da Seiva Trupe, uma importante companhia que comemora 30 anos de existência. "Eles me convidaram para dirigir um espetáculo de comemoração de aniversário e eu já aceitei."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.