'Gosto do que é proibido'

Cineasta e dramaturgo, o americano é autor de uma obra construída de forma milimétrica, a fim de surpreender o público

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

LaBute. Na encenação de Lokeview Terrace, Kerry Washington finge gesto sonhado por feministas

 

 Feministas de carteirinha certamente devem mirar uma foto do cineasta e dramaturgo americano Neil LaBute como alvo em seu jogo de dardos. Afinal, autor de frases pontiagudas ("Nunca confie em alguém que pode sangrar durante uma semana e não morrer" é uma das várias que constam no filme Na Companhia dos Homens), ele é provocador por natureza em seus trabalhos, questionando o peso de valores masculinos e femininos no relacionamento humano. E foi tal ingrediente que despertou o interesse de encenadores brasileiros, a ponto de quatro peças suas ganharem os palcos nacionais desde o fim do ano passado, dos quais uma, A Forma das Coisas, estreia hoje em São Paulo - outra, A Gorda, continua em cartaz.

O segredo, para alguns, está na carpintaria do texto. "A prosa de LaBute é meticulosamente construída", atestou Monique Gardenberg, que dirigiu Baque em 2005, primeira montagem brasileira de um trabalho do dramaturgo. "Cada detalhe é cuidadosamente revelado no momento certo, como em uma equação matemática, e, quando o castelo está todo construído, LaBute o destrói sem piedade."

É o que se observou em Restos, monólogo com final surpreendente montado em 2009 por Antônio Fagundes, e Aquelas Mulheres, texto seco e nada poético que estreou no Rio em janeiro. Também é o caso de A Gorda, uma espécie de pedagogia da transgressão a partir da paixão de um homem por uma mulher excessivamente pesada. E, finalmente, A Forma das Coisas, em que LaBute discute a relação entre o jogo de poder e a arte contemporânea. Sobre sua obra, ele conversou, por e-mail, com o Estado.

Você mantém uma curiosa relação com os críticos: alguns o chamam de chauvinista, provocador e até racista. Já Camille Paglia foi enfática ao tachá-lo de moralista. Quem é você, afinal?

Provavelmente sou todas essas coisas e algo mais - críticos são, por natureza, sensacionalistas, sempre atrás de algum barulho, de uma manchete chamativa, enquanto os artistas são aqueles que ganham ou sofrem em suas mãos, sendo rotulados. Não penso muito nisso. Procuro não dar aos críticos a força capaz de alterar meu ânimo com suas considerações.

A dificuldade nas relações humanas parece ser o estofo de seu trabalho.

Sou interessado em pessoas, como se comportam, vivem (sozinhas ou com outros), as chances que aproveitam na vida. A política dos sexos é muito mais interessante para mim que a política da nação. Minhas peças tendem a dissecar o pessoal, mesmo quando elas atravessam a vida pública dos personagens. Eu me interesso em ouvir o proibido, dizer o que é vetado, conduzir o público em uma jornada para a qual não está preparado. Esse é meu trabalho como escritor.

Suas peças, então, estão destinadas a afetar a plateia?

Sim, da forma mais visceral possível. Busco um público que saiba rir, que compreenda o que lhe é apresentado, que chegue a arfar, enfim, com a minha audácia e a dos personagens. Uso estratégias cênicas pouco convencionais (música alta, iniciar a peça sem avisar, separar a plateia em grupos pequenos) de que forma que a experiência seja única. Não estou aqui apenas para contar uma história - quero que a narrativa seja viva e te agarre pelo pescoço.

Sua escrita é meticulosa, interessada em "destruir castelos". Como funciona essa técnica?

Escrevo quando quero, mas frequentemente tento ser mais destemido e aventureiro que na vida real. Quando finalmente encontro uma história na qual acredito, tento contá-la da forma mais honesta possível, não me preocupando com o que o público vai pensar - ele apenas é um convidado nessa viagem. É minha responsabilidade básica. E o fato de "destruir castelos", como você disse, ou de jogar com as emoções da plateia, é simplesmente uma opção - uma esperança de que a história termine da melhor forma possível, independentemente dos desejos dos espectadores.

Sua inspiração está na forma como as pessoas falam?

Algo parecido: seria uma combinação maluca entre poesia, prosa, gírias, e também "humms" e "ahhhs" e "entende?" que, uma vez misturados, soam parecidos com a fala das pessoas. Não é um truque, apenas o trabalho de criar hibridismo da forma "LaBute" de falar.

Você já foi comparado a Strindberg, Ibsen, Edward Albee, David Mamet. Quem realmente te influenciou?

Esses e dezenas de outros: Wallace Shawn, Eric Rohmer, Caryl Churchill e muitos mais. Mesmo os que escreveram apenas um trabalho (De Laclos e Lermontov). Sou o produto de todos, de Eurípides aos meus contemporâneos. E também de mim mesmo! Eu me despedaço muito, o que é inevitável pois nós, escritores, somos basicamente uns canibais.

Quem é

Neil Labute

DRAMATURGO E CINEASTA

CV: Nascido em 1963, em Detroit (EUA), estreou no teatro em 1992 com Na Companhia dos Homens, transformada em filme por ele mesmo em 1997. No total, já escreveu 15 peças e dirigiu oito longas - o último, a refilmagem de Morte no Funeral, teve pré-estreia fim de semana passado.

Diálogos provocadores

lA Forma das Coisas

ADAM - O que você tá querendo dizer, você vai pichar a estátua?

EVELYN - Eu tava pensando pintar um pênis nela, mas já que você vai me impedir...

ADAM - Bem, você pode pintar nela... o pinto. (Evelyn sorri)

EVELYN - Vai ser engraçado, não vai?

ADAM - Vai, acho que um pênis de grafite ia ser muito esquisito... (Leve pausa) Você vai passar só um jato em cima daquelas folhas de parreira ou vai pintar um membro mesmo?

EVELYN - Provavelmente, seria o correto anatomicamente e já que eu vou fazer, por que não fazer direito...

ADAM - ... fazer direito? Verdade. E já que eu vou ter que te expulsar, se você usar esse spray, seria bom para o meu relatório se eu soubesse o motivo...

EVELYN - Eu não gosto da arte que não é verdadeira.

lNa Companhia dos Homens

Sabe qual é a diferença entre uma bola de golfe e o Ponto G? Eu levei 20 minutos até encontrar minha bolinha de golfe.

lA Enfermeira Betty

Meu amigo disse que, se você fosse só um pouco bonito, já seria um crime. De fato, é uma vergonha você ser tão idiota.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.