Vincent Kessler/Reuters
Vincent Kessler/Reuters

'Gosto do humor rápido, por isso corto sem dó'

Diretor que abriu o festival francês com Midnight in Paris também lembra de suas variadas admirações que ele coloca em seu novo filme

Luiz Carlos Merten,

16 de maio de 2011 | 02h10

CANNES - Sábado à tarde na Croisette, no Hotel Martinez. Woody Allen está terminando sua participação no 64.º Festival de Cannes. Ele concede ao Estado sua penúltima entrevista, uma individual programada para durar 20 minutos, mas que se estende por mais dez, para desespero da assessora que aponta a toda hora para o relógio. Mas Allen está feliz da vida. Midnight in Paris foi bem recebido pela crítica - e o filme estreia em 17 de junho no Brasil.

Conta a história de um roteirista de Hollywood que está cansado de vender seu talento para o cinemão. O cara acha que nada poderá superar a magia dos anos 1920, quando Paris era uma festa. E então, uma noite, depois de discutir com a namorada, ele vê chegar, ao som das batidas da meia-noite, a oportunidade de realizar uma viagem fantástica ao encontro dos seus ídolos - Scott (Fitzgerald), Ernest (Hemingway) e os outros. Woody Allen conta tudo. A origem do filme, do seu amor pela França, pela literatura. Com a palavra, o autor.

Antes de falar sobre Midnight in Paris, tenho duas questões que se referem especificamente ao Brasil. Uma delas diz respeito à sua descoberta de Machado de Assis. Como isso aconteceu?

Devo a uma fã brasileira que me mandou um e-mail falando de Machado, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ela me recomendava que lesse o livro. Tinha certeza de que não iria me decepcionar. E não me decepcionei! O livro é sutil, divertido, inteligente, mas acima de tudo o que me encantou foram a sua ironia e a sua modernidade. Machado refletia sobre o próprio trabalho de uma forma muito contemporânea. Nesse sentido, Brás Cubas é completamente moderno. Poderia ter sido publicado na semana passada.

Existem duas adaptações do livro pelo cinema brasileiro, feitas por diretores de perfis bem diferentes que você talvez não conheça, Julio Bressane e André Klotzel. Gostaria de assistir aos filmes?

Em cópias com legendas? Claro. É muito interessante o que você diz. Dois diretores de perfis bem diferentes. É curioso como diferentes artistas podem se apropriar do mesmo material com objetivos próprios. Eu mesmo fiz o meu Guerra e Paz (de Tolstoi) com um recorte muito particular (A Última Noite de Boris Grushenko).

A outra questão é sobre seu filme brasileiro. Você vai mesmo filmar no Rio?

Tenho filmado em Londres, Barcelona, Paris. Agora vou a Roma. Minha irmã e produtora esteve no Brasil conversando com o pessoal de lá. Produtores, a film comission. Existe por enquanto um rumor. Não há nada acertado, mas um filme no Brasil poderia ser interessante, por que não?

Agora sim, Midnight in Paris. Você disse que o título lhe veio antes da história. Isso ocorre com frequência?

Nunca! Tinha esse contrato para fazer o filme na França e nenhuma história. A primeira vez que vim aqui foi em 1964. Foi amor à primeira vista. Mas não pensava num filme. Me veio o título, Meia-Noite em Paris. O que poderia ocorrer nesse horário, numa cidade tão mágica? De repente tive o click e vi uma forma de resgatar a Paris mítica que está no imaginário dos norte-americanos.

Foi fácil chegar aos personagens que você queria reencontrar nessa Paris mítica?

Pergunte a qualquer norte-americano que tenha um lustro cultural e ele saberá de cor os personagens de Paris nos anos 1920, na belle époque. Se estou contando a história de um americano que viaja aos anos 1920, na França, ele tem de encontrar Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Luis Buñuel, Salvador Dalí. São todos os arautos de uma era de mudança, que me deu vontade de retratar.

Tenho a impressão que seu ‘Ernest’ (Hemingway) ganha um destaque especial. Ele diz as coisas mais profundas e, ao mesmo tempo, é aquela figura mítica - o homem viril, o aventureiro, o sedutor... Você precisou fazer muita pesquisa?

Nenhuma! Tudo o que coloquei na tela, e nos personagens, faz parte da minha cultura acumulada, da minha vivência. Tenho a impressão que Hemingway e William Faulkner são os gigantes da literatura norte-americana do século 20. Scott Fitzgerald também é muito bom, mas está um pouco abaixo. E poderia citar outros norte-americanos em Paris, John dos Passos. Hemingway virou uma referência especial justamente porque o homem se tornou tão importante quanto o escritor. Todo mundo acompanhava o Hemingway viril, aventureiro, sedutor, caçador, beberrão. Essa mistura de arte e vida atuou no imaginário de toda uma geração e influenciou outros que vieram depois... Norman Mailer, por exemplo. Sim, você tem razão. O filme transpira esse fascínio.

Uma das piadas mais deliciosas do filme é quando seu alter ego, o personagem interpretado por Owen Wilson, sugere a Luis Buñuel a ideia para O Anjo Exterminador. É um filme importante para você?

É um filme importante para a história do cinema. Mas essa é uma piada que as pessoas entendem aqui na França, em Cannes. Nos EUA, o público dificilmente vai captar a nuance. Eles conhecem Buñuel por lá, mas não possuem essa sofisticação. Amo O Anjo Exterminador. Acho genial a ideia daquelas pessoas presas num espaço. A propósito, o filme mostra o plano dos criados abandonando a casa e o repete, exatamente do mesmo ângulo. Perguntaram o porquê para Buñuel e ele disse que os produtores o haviam contratado para fazer um filme de, sei lá, 100 minutos. Ele tinha 95. Repetiu o plano só para atingir a duração.

Justamente a duração dos filmes. Os seus são muito curtos. Por quê?

Porque não preciso de mais tempo para dizer o que quero. Sempre tive a maior admiração pelos Irmãos Marx, por Preston Sturges. O humor deles é rápido, o diálogo, vivo. Morro de medo de entediar o espectador. E por isso corto, corto sem dó.

Isso é raro. A maioria dos autores se recusa a cortar o próprio trabalho, concorda?

Absolutamente, e é um erro. A montagem é uma arte que eu gosto de exercitar. Sou a favor dos filmes curtos.

Na maioria de seus filmes, senão em todos que você não representa, há sempre um personagem que é seu alter ego. Owen Wilson é o melhor de todos os Woody Allens da tela. Concorda?

Melhor que eu? Owen trouxe uma vida para o filme que superou toda a minha expectativa. Não lhe dei instruções precisas, não dizia como ele deveria ler as linhas. Ele chegou ao desenho do personagem por si só. Captou algo de mim e acrescentou o melhor dele.

Por falar em melhor, ninguém é melhor do que Marion Cotillard. A personagem dela, essa modelo de Picasso, é acurada?

Sublimei na personagem tudo o que sempre li sobre as musas inspiradoras de grandes pintores e escultores. E Marion é, sim, maravilhosa. No início, a personagem era uma norte-americana em Paris. Mudei só para poder tê-la no elenco. Ela chegou vacilante, estressada, sem saber se conseguiria fazer o papel. Eu tinha certeza. Marion representa a própria sedução da França na tela.

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