"Gostaria de fazer parte daquela casa", diz Coelho

O escritor Paulo Coelho lança nesta sexta-feira, na Academia Brasileira de Letras, o livro O Demônio e a Srta. Prym (Objetiva, 214 págs., R$ 19,90). Em entrevista ao Estadao.com.br, o autor brasileiro mais vendido no mundo fala sobre seu trabalho, suas crenças e um desejo: tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras.Existe vocação para o bem e para o mal?Paulo Coelho - Não existe vocação de ninguém para o bem ou mal, mas isso pode ser entendido de forma positiva ou negativa. Há uma tradição cristã e outra judaica para definir limites entre o bem, o mal e o homem. Penso conforme a tradição judaica, que diz "não faças ao outro aquilo que não queres que te façam". Mas como sou monoteísta, acho que o bem e o mal vêm de cima. O homem não consegue entender que o bem e o mal vêm de Deus.Mas se é assim, por que preferir o bem? O homem é um animal político e tem que se posicionar na vida. A dualidade é colocada à sua frente como um problema a resolver. Só o que sabemos é que temos uma razão para estarmos aqui. Interpreto essa razão como sendo a evolução que todo homem tem que seguir rumo a Deus. Aí está a verdadeira felicidade, que não é possível de se aproveitar sozinho, porque somos feitos para viver em coletividade. Você pode ver que em meus livros sempre trato de comunidades, nunca de indivíduos. A evolução é sempre coletiva. Quando um homem pratica o bem, a humanidade inteira evolui, e quando pratica o mal, afeta igualmente toda a coletividade.O que é necessário para evoluir?Não sou maniqueísta. Evolução é consciência, e não está ligada somente à fé. Pessoas que têm fé podem praticar atos violentos contra a sociedade e contra o homem, como é o caso dos fundamentalistas. Assim como há muitos casos, graças a Deus, de pessoas que não praticam religião, mas são preocupadas com o próximo. São essas que vão evoluir mais. Renunciar a prazeres é uma forma antiga de conceber o problema. Hoje, vemos que o problema não está em ter um carro, por exemplo, mas usar o carro como instrumento de poder. O prazer é necessário.A ABL o convidou para lançar seu novo livro. Você pensa em se candidatar a uma vaga da Academia?Como qualquer escritor brasileiro, gostaria de fazer parte daquela casa. Como todos os escritores do País, eu desejo sim um dia me candidatar à ABL, porque tenho uma grande admiração por todas aquelas pessoas. Mas não penso em candidaturas por agora. Não será, por exemplo, no ano que vem. Mas no futuro, se Deus quiser.

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