"Gorazde" é jornalismo em quadrinhos

O jornalista Joe Sacco gosta de assuntos espinhosos. O que não seria nenhum absurdo em se tratando de um profissional da notícia. É o suporte escolhido por ele para contar suas histórias que o diferencia de outros repórteres. Sacco é também quadrinista e é na forma de quadrinhos que ele aborda temas como o de seu último livro, Área de Segurança Gorazde (Ed. Conrad, 232 págs., R$ 37), em que narra a rotina dos muçulmanos durante a guerra da Bósnia. O álbum já está nas livrarias e é a segunda incursão de Sacco sobre conflitos pelo mundo. Em 1996, ele passou dois meses em territórios ocupados em Israel e lançou o livro Palestina, vencedor do prêmio American Books Award daquele ano. No Brasil, a obra ganhou o HQ Mix de melhor graphic novel estrangeira de 2000. Com Área de Segurança Gorazde, o autor volta ao chamado ´jornalismo em quadrinhos´. Nascido em Malta e formado em Jornalismo nos Estados Unidos, Sacco foi para a Bósnia em 1995, três anos após o início do conflito. Esteve, como a maioria dos repórteres, em Sarajevo, a capital, mas foi um enclave (território de um grupo dentro da área de outro) ao sul do país que lhe chamou a atenção: Gorazde - uma das chamadas áreas de segurança criadas pela ONU para tentar proteger a comunidade muçulmana dos ataques sérvios. A partir da intervenção da ONU, em 1995, Gorazde, que estava isolada, passou a receber comboios com comida, remédios e levas de jornalistas. Sacco estava entre eles e durante um período entre o fim daquele ano e o começo de 1996, foi a Gorazde quatro vezes. O livro basicamente conta a história da tentativa dessa comunidade em voltar ao cotidiano pré-guerra. Entre um depoimento e outro dos personagens que permeiam o álbum, Sacco insere algumas notas ou adendos históricos para tentar esclarecer os motivos da limpeza étnica imposta pelo general sérvio Slobodan Milosevic. Mostra que as feridas entre muçulmanos, croatas (católicos) e sérvios (cristãos ortodoxos) remontam à Segunda Guerra Mundial. O autor se preocupa em situar o leitor historicamente, mas apenas para que este entenda o motivo do conflito. São as pequenas histórias, o dia-a-dia do povo sitiado que o inspira. Do soldado que insiste em aprender letras de rock em inglês às garotas que, no meio de uma cidade em escombros, se preocupam com calças jeans de marcas. Sacco também não se apóia em imagens fáceis. Seu traço sujo, copiado das HQs underground de Robert Crumb, poderia retratar uma carnificina por página, mas ele distribui com parcimônia chacinas e atrocidades dos soldados sérvios. Assim como em seu livro ´Palestina´, ele escolhe dar voz à minoria, mas, diferentemente desse, em que falam tanto israelenses quanto palestinos, em ´Gorazde´, não há o ´outro lado´. Obviamente por que os sérvios não falavam e tampouco explicariam os massacres cometidos contra os muçulmanos. Também como em seu primeiro livro, Sacco se coloca como personagem. Os relatos são quase sempre em primeira pessoa, sejam dos muçulmanos, sejam do próprio autor. Com a obra, Sacco se firma em um nicho que aproxima os quadrinhos do documentário e que já produziu obras relevantes. Gen, Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, HQ autobiográfica sobre os sobreviventes da bomba de Hiroshima, ou Maus, de Art Spiegelman, sobre o Holocausto (e ganhador do prêmio Pulitzer), são algumas delas. Há ressalvas jornalísticas em Gorazde que o próprio autor assume, como não ter apurado as denúncias de uso de armas químicas. Ainda assim, é um trabalho importante sobre uma região onde paz é uma palavra dita com prudência.

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