J. F. Diorio/AE
J. F. Diorio/AE

Google quer iniciar a revolução digital no Brasil

James Crawford, diretor de engenharia do Google, fala sobre os planos da empresa - ela pretende abrir uma e-bookstore no País em 2012 e já conversa com editoras

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h00

O Google já tem livrarias exclusivas para venda de livro digital nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Está se preparando para entrar na Europa e acaba de anunciar que vai inaugurar sua loja brasileira em 2012. O primeiro passo público nesta direção foi dado na quinta-feira, em São Paulo, quando a gigante americana reuniu editores e livreiros para apresentar seus planos. Muitos editores, no entanto, saíram frustrados: a parte prática do negócio, como preços e os passos seguintes, será discutida individualmente com cada empresa. Após a apresentação, restrita ao potenciais clientes da empresa, James Crawford, diretor de engenharia do Google, falou com exclusividade à coluna Babel, do Sabático.

O que faz do Brasil um mercado interessante para o Google?

O Brasil é o sexto maior mercado do Google e isso é grande. Além disso, o sistema Androide está se popularizando muito rapidamente aqui. Fui a shopping centers aqui e vi muitas lojas vendendo diversos tablets que usam Androide e isso é muito bom. É interessante também pelos e-books. Em dois anos eles deixarão de ser um mercado pequeno e serão responsável por uma parte significativa das vendas. Definitivamente, em dois anos os e-books vão decolar. Enfim, é um ótimo momento.

É o tempo necessário para o Google se preparar?

Queremos muito inaugurar a loja em 2012 e é por isso que estamos aqui conversando com os editoras. Quando escolhemos abrir uma loja em um determinado país, estudamos seus impostos, suas leis de proteção ao consumidor, temos que ver quais são os livros que teremos direito de vender, ver como abrir de fato a loja e promover os livros. Há muito o que se fazer antes de chegar a um país e enquanto não fizermos tudo isso, especialmente o que diz respeito à lei de proteção do consumidor, não começaremos a vender e-books.

O que o leitor brasileiro pode esperar com a chegada do Google?

Uma das coisas únicas dos nossos e-books é que você pode comprar uma unidade e ler em qualquer lugar. Vamos supor que você compre um livro digital do Google em seu notebook. Com um aplicativo específico você pode lê-lo no iPad. Também pode ler no iPhone ou num celular Androide. É possível ler até mesmo em um e-reader da Sony ou em qualquer outro compatível com o Adobe. A outra diferença é que o livro será do próprio leitor e ele não será obrigado a ler em um aparelho específico. Se você começar a ler no telefone e mudar para o laptop e depois do laptop para um tablet, o livro será aberto exatamente na página em que parou.

E os editores?

Estabelecemos um relacionamento muito bom, aberto e de parceria com os editores americanos: nos encontramos regularmente, perguntamos o que podemos fazer por eles e quais inovações podemos fazer juntos para melhorar a experiência de leitura, e tentamos entender as necessidades dos leitores. Estamos aqui nesta semana nos reunindo com muitos editores, estamos vendo quais são preocupações deles, o que eles querem ver em e-books e como eles querem entrar no mercado de livros digitais.

Mas o Google já tem seu próprio modelo.

Somos flexíveis em muitas coisas, mas isso de que um e-book pode ser lido em qualquer é aparelho é muito caro ao Google. É assim que o Google faz as coisas e não mudaremos. Nas demais áreas vamos nos sentar com os editores para ver como eles atuam.

Qual é a sua opinião sobre o DRM (Digital Rights Managment)?

Se houver editores que não quiserem usar o DRM, isso é raro mas há alguns nos Estados Unidos, o Google não vê problemas nisso. Mas a grande maioria quer usar DRM e também não vemos problemas nisso. Nós apoiamos o seu uso para laptops, tablets, telefones, leitores digitais e fornecemos a proteção para todas as plataformas. Em outras áreas, tem sido argumentado que os consumidores americanos ficam tão felizes quando veem um conteúdo sem DRM que acabam comprando o produto dessas editoras. Isso porque, obviamente, o DRM atrapalha o usuário final. Então, algumas editoras assumiram que para o leitor é melhor que os livros não venham com DRM, mas, como eu disse, elas são muito poucas. Aos que querem DRM, nós fornecemos a proteção.

O que o Google oferece a livrarias?

Em todos os países onde já estamos, fizemos parcerias com pequenas e grandes livrarias. Nos Estados Unidos, a Barnes & Noble e a Amazon vendem a maior parte dos livros, mas lá há centenas de livrarias independentes. Elas são muito importantes porque tendem a ser grandes incentivadoras da leitura, são lugares onde as pessoas porque já conhecem o dono, que por sua vez conhece todos os clientes, recomenda livros a eles, organiza clube de leitura e sessões de autógrafos. Apoiamos essas livrarias porque sabemos que é muito difícil para elas migrarem para os livros digitais. São poucas pessoas trabalhando e não vão investir na criação de um aplicativo para Androide, por exemplo. Então, estamos apoiando cerca de 300 livrarias nos Estados Unidos.

E o que o Google faz por elas?

Elas vendem os e-books da Google. O cliente é dela, então é ela quem vende e cobra. Mas o que está vendendo é um e-book do Google. Elas fazem o site e nós criamos os aplicativos, fornecemos do DRM, armazenamos os e-books. Atuamos como um atacadista e fazemos todo o serviço técnico.

Esse serviço também será oferecido aos livreiros brasileiros?

Fazemos isso em todos os nossos mercados e a expectativa é que isso seja feito no Brasil também. E em alguns lugares como a Austrália, estamos trabalhando com as principais lojas. Aqui, vamos procurar trabalhar livrarias de todos os tamanhos.

Mas as duas principais redes do Brasil, a Saraiva e a Cultura, já fizeram seus investimentos nesse sentido.

Já fizeram, mas ainda estão muito no início: não têm uma boa solução em nuvem e nem o esquema que permite a leitura em qualquer aparelho. Ainda é cedo e não sei o que acabaremos fazendo, mas, como disse, na Austrália fizemos parcerias com grandes livrarias.

Como superar a pioneira Amazon e a Apple, que tem uma legião de consumidores fanáticos?

São duas empresas muito boas. No caso dos e-books, elas estão muito próximas. Mas se um dia você comprar um e-book para o iPad e depois decidir comprar um tablet que usa o sistema operacional Androide, um Kindle Fire ou qualquer outro tipo de leitor digital que não seja da Apple você perde seus livros. Você não vai comprar um cd que só poderá ler em aparelhos de uma determinada marca. Com o passar dos tempos, os consumidores vão perceber que este ambiente fechado simplesmente não funciona e que a solução "compre uma vez e leia em qualquer lugar" será muito melhor para eles. Com relação à Amazon, ela tem feito um bom trabalho, mas este é um mercado muito novo no Brasil e nossa estratégia é a de trabalhar com as editoras e lançar com eles a maior quantidade possível de e-books e disponibiliza-los para qualquer tipo de leitor digital. Estamos também nos aproximando dos vendedores de livros, que são as pessoas que entendem do mercado brasileiro. Portanto, agimos diferentemente da Amazon, que vem de fora sem de fato conhecer o mercado e sem saber o que os leitores querem no Brasil.

E como fica a Kobo?

Ela é muito pequena, não tem todo o conteúdo e seu conjunto de aparelhos ainda é muito restrito. Trabalhamos com Androide; então, nos países em que lançamos, o mercado de Androide se transforma no mercado de telefones e de tablets. Primeiro vem os aplicativos, depois os livros. Com a próxima geração do Androide e a que vem depois, empresas como a Kobo passarão por maus momentos.

Como ingressar, de fato, no mercado de livros digitais?

Tendo conteúdo suficiente, e acredito que os brasileiros estejam bem no meio do trabalho de conversão, que deve ser completado no ano que vem. Além disso, é preciso ter uma boa solução de armazenamento na nuvem para que o leitor não tenha que se preocupar em descobrir como se faz o download de um livro e depois ainda ter de fazê-lo funcionar em seu aparelho. Você tem que ter algo fácil de ser usado e muito conteúdo.

Como é o modelo de negócio do Google no que se refere a preços?

Nos Estados Unidos, algumas editoras adotam o modelo de agência, que quer dizer que a editora é quem escolhe o preço do livro. Empresas como o Google, Amazon e Apple são as agentes da editora, ou seja, estamos ajudando essas empresas a vender seus livros. Mas oficialmente as editoras são as vendedoras e elas podem fixar o preço. Outras editoras adotam o modelo de venda tradicional, ou seja, nós compramos o e-book de uma editora e vendemos para o consumidor final. Nesses casos, nós definimos os preços. Então, trabalhamos das duas formas. Em todos os mercados que entramos, não pretendemos rebaixar os preços e procuramos cobrar mais ou menos o mesmo preço das outras livrarias.

Qual dos dois modelos considera melhor?

Há prós e contras nos dois modelos. Eu mais ou menos prefiro o modelo tradicional porque ele cria mais competição e isso acaba sendo melhor para o consumidor final. É possível fazer promoções especiais, ou seja, é mais possível agir como uma livraria.

Nos Estados Unidos e Europa, o mercado de livros digitais começou pelos leitores e-Ink. Você acredita que acontecerá da mesma forma no Brasil ou passaremos direto para os tablets coloridos?

O preço dos tablets Androide estão caindo muito, e o Kindle Fire e o Nook colorido estão se saindo muito bem. Nossa posição é que tablets coloridos e baratos vão ter um papel importante em 2012.

Agora que chegaram, o que esperam para o próximo ano?

Será um ano muito emocionante. No começo de 2012, as pessoas vão ver que o negócio de e-books realmente começou no Brasil. É um ótimo momento para estar neste negócio.

Livros eletrônicos podem ajudar a melhorar as taxas de leitura em países como o Brasil, onde se lê pouco? Ou só levariam o consumidor a comprar mais e mais?

Não sei se já foram feitos estudos com pessoas que não liam livros físicos e compraram um leitor digital. Mas sei que foram feitos estudos nos Estados Unidos que mostraram que a leitura digital geralmente faz as pessoas que já leem comprarem ainda mais livros. Se você entrar num avião carregando um único leitor digital com 20 livros, é muito mais provável que você leia alguma coisa durante o voo. Agora, se livro digital vai atrair gente que não lia eu não sei. Pode ser que sim, principalmente se forem feitas ações com enhanced e-books interativos e com vídeos. Estamos também criando novas ferramentas que unem livros e redes sociais. Há muitas coisas interessantes acontecendo, mas ainda é cedo para saber se o livro digital mudará os hábitos de leitura daqueles que não leem tradicionalmente.

Há planos de contratação de pessoal no Brasil?

Seguramente. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, onde estamos em crescimento contínuo.

Você esteve na Biblioteca Nacional, no Rio, antes de vir a São Paulo. Vê alguma chance de trabalharem juntos?

Estive na Biblioteca Nacional e achei tudo impressionante. Eles já estão escaneando alguns livros e documentos antigos . Estamos sim conversando com eles sobre como podemos ajudar. Foi uma conversa muito boa.

O que você contou aos editores e leitores brasileiros?

Conversamos sobre como o projeto de e-books do Google funciona, como serão as parcerias, e falamos um pouco sobre nossas políticas. Tentamos encorajá-los a conversar mais com a gente e a aderirem ao Google Book Search, usado por poucas editoras brasileiras. Questões como preço serão conversadas com cada empresa separadamente.

Como eles responderam à apresentação da empresa?

Não tenho muita certeza, foi tudo em português. Na verdade, fizeram muitas perguntas e algumas pessoas vieram conversar conosco no final da apresentação. Foi uma boa discussão.

Tudo o que sabemos sobre:
James CrawfordGoogle

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.