'Good Prose: The Art of Non-fiction'

Leia o capítulo 1 da obra de Tracy Kidder e Richard Todd

09 de março de 2013 | 01h30

A primeira vez que trabalhei com Todd foi pelo telefone. Conversamos sobre o artigo que eu estava tentando escrever. A conversa foi aproximadamente assim:

O que havia de errado com o artigo? Perguntei.

Bem, para começar, ele disse, e parou, como que lamentando o que teria de dizer. Bem, para começar, a primeira frase.

Eu tinha desejado uma abertura espetacular. Minha primeira frase dizia: "Na primavera de 1971, alguém ficou sedento de sangue no Vale de Sacramento". Um colega da Iowa Writers` Workshop havia elogiado a frase. Todd não gostara dela?

Não, ele disse, era melodramática.

Lembrando dessa conversa décadas mais tarde, Todd disse com um toque de ironia que eu não ouvira em sua voz na época: "Bem, creio que mantenho esse julgamento."

Escrever é falar com estranhos. Você quer que eles confiem em você. Seria bom que começasse confiando neles - imaginando para cada leitor uma inteligência no mínimo igual à que imagina para você mesmo(a). Você seguramente sabe algumas coisas que o leitor não sabe (senão, por que escrever?), mas ajuda pensar que o leitor tem conhecimentos inacessíveis a você. Não sé uma questão de generosidade, mas de realismo. A boa escrita cria um diálogo entre escritor e leitor, com o imaginado leitor em alguns momentos questionando, criticando e, por vezes, assim você espera, concordando. O que a pessoa "sabe" não é algo que ela possa tirar de uma prateleira e entregar. O que ela sabe em prosa é amiúde o que descobre no ato de escrevê-la, como na melhor das conversas com um amigo - como se ela e o leitor fizessem a descoberta juntos.

Dizem aos escritores que eles precisam "agarrar", ou "fisgar", ou "capturar" o leitor. Mas pense nessas metáforas. Seu tema é violência e compulsão. Elas sugerem a relação que se poderia querer ter com um criminoso, não com um leitor. Montaigne escreve: "Não desejo que ninguém use a força para obter minha atenção".

Inícios são um exercício de limites. Você não pode fazer o leitor amá-lo na primeira sentença ou parágrafo, mas pode perder o leitor logo de cara. Ninguém espera que um médico cure na mesma hora, mas o médico seguramente pode alienar o paciente na mesma hora com brusquidão, bravatas, indiferença ou confusão. Há muito a se dizer a favor de um início calmo.

A primeira linha mais memorável da literatura americana é "Call me Ishmael" ("Podem me chamar de Ishmael", em uma tradução possível). Três palavras, quatro tempos. A frase é tão conhecida que, às vezes, citada fora de contexto, é compreendida como uma ordem professoral, uma voz estrondosa do púlpito. Ela é mais apropriadamente ouvida como um convite, quase casual, e, dada a complexidade do que vem depois, é maravilhosamente simples. Quem tentar dizê-la em voz alta, provavelmente o fará com muita suavidade, como se estivesse conversando.

Muitos ensaios, memórias e narrativas memoráveis atingem alturas dramáticas com inícios calmos como esse. In Cold Blood (A Sangue Frio) é lembrado por seu relato fascinante e assustador sobre dois assassinos e suas vítimas, e poderia ter começado de várias maneiras dramáticas. Começa, porém, com uma passagem descritiva contida:

"O vilarejo de Holcomb fica nos altos trigais do Kansas oriental, uma região desértica que outros moradores do Estado chamam de ´confins`. A cerca de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, o campo, com seus céus azuis profundos e um ar límpido de deserto, tem uma atmosfera que é mais Extremo Oeste do que Meio-Oeste."

Embora o viés para o início calmo seja apenas um viés, uma predisposição, ele pode servir como uma verificação útil de excessos. Alguns inícios famosos foram certamente escritos como proposições grandiosas ("Todas as famílias felizes se parecem ..." ) ou considerações vastas ("Era o melhor dos tempos ...") Esses gestos retóricos mostram uma confiança extrema, e mais de um século de leitores foi cativado por eles. A exuberância não deve ser negada a ninguém, mas é sempre prudente lembrar de que não se é Tolstoi ou Dickens e que a modéstia também pode ressoar. Podem me chamar de Ishmael.

Tímido ou ousado, um bom começo tem de ser claro. Uma linha sensível perpassa a prosa; as coisas se encadeiam com a lógica literal ou com a lógica do sentimento. A clareza não é uma virtude entusiasmante, mas é virtude mesmo assim, em especial no começo de um trabalho em prosa. Alguns escritores - alguns acadêmicos, burocratas e críticos de arte, por exemplo - parecem resistir à clareza a ponto de escrever confusamente de propósito. Poucos admitiram isso. Uma que o fez foi a maravilhosa (mas não para ser imitada) Gertrude Stein: "Minha escrita é clara como lama, mas a lama se assenta e o riacho límpido flui e desaparece". Curiosamente, essa é uma das frases mais claras que ela jamais escreveu.

Para muitos outros escritores, escritores de todos os gêneros, a clareza simplesmente cai vítima de um desejo de alcançar outras coisas, de ofuscar com estilo ou bombardear com informação. Com a boa escrita, o leitor experimenta uma dupla experiência, sucumbindo à história ou às ideias enquanto desfruta da maestria do escritor. Aliás, uma maneira de saber que a escrita merece ser chamada de arte é a coexistência desses dois prazeres na mente do leitor.

Mas uma coisa é quando o leitor se compraz com as realizações do escritor, outra quando o prazer do próprio escritor é visível. Habilidade, talento, inventividade, tudo pode se tornar exagerado e intrusivo. E isso é especialmente verdadeiro nos começos de coisas. A imagem que chama a atenção para si é, com frequência, a imagem que não se pode dispensar. O escritor trabalha a serviço de história e ideia, e sempre a serviço do leitor.

Às vezes o escritor que sobrecarrega uma passagem inicial está simplesmente com medo de aborrecer o leitor. Uma temor respeitável, mas nada é mais tedioso que a prolixidade. Em sua introdução a Os elementos do estilo, E. B. White sugere que o leitor está sempre em risco de confundir. O leitor é "alguém chafurdando num pântano" e cabe ao escritor (a quem pertence o pântano, é claro) "drenar esse pântano rapidamente e colocar esse alguém em terreno seco ou ao menos atirar-lhe uma corda".

Clareza nem sempre significa brevidade, ou simplicidade. Tome-se, por exemplo, a abertura do livro de memórias Fala, Memória de Vladimir Nabokov:

"O ninho balança sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa existência não passa de uma breve fresta de luz entre duas eternidades de escuridão. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o homem, como regra, vê o abismo pré-natal com mais calma do que aquele para o qual se encaminha (a cerca de cento e quarenta e cinco pulsações por hora(???)). Conheço, porém, um jovem cronofóbico que experimentou uma espécie de pânico quando assistiu pela primeira vez filmes caseiros que haviam sido feitos algumas semanas antes de seu nascimento. Ele viu um mundo praticamente inalterado - a mesma casa, as mesmas pessoas - e depois percebeu que ele não existia nele e que ninguém lamentava sua ausência. Ele captou um vislumbre de sua mãe acenando de uma janela do andar superior, e aquele gesto familiar o perturbou como se fosse algum misterioso adeus. Mas o que o apavorou particularmente foi a visão de um carrinho de bebê novo em folha parado no pórtico, com a transgressora e complacente aparência de um esquife. Mesmo este estava vazio, como se, no curso invertido dos fatos, seus próprios ossos tivessem se desintegrado."

Não há nada confuso nesse parágrafo, mas ele nos envolve com uma ideia sinuosa e introduz um autor que requer nossa mais absoluta atenção. Ele espera de nós pensamentos longos. O convite é claro e franco, e é feito com um erguer de ombros: aceite se quiser.

Não se pode dizer tudo de uma vez. Boa parte da arte dos inícios é decidir o que guardar para mais tarde, ou para não dizer. Faça uma coisa de cada vez. Prepare o leitor, diga tudo que o ele precisa saber para continuar lendo, e não diga mais. Jornalistas são instruídos a não "enterrar o lead" - instruídos, melhor dizendo, a assegurar que relatem primeiro os fatos mais importantes de uma história. Isso não se justifica em formas mais longas de escrita, O coração da história é geralmente o lugar a se chegar, não o lugar para começar. Evidentemente, o leitor precisa de uma razão para continuar, mas a melhor razão é simplesmente a confiança de que o escritor vai a algum lugar interessante. George Orwell começa Homenagem à Catalunha com a descrição de um miliciano italiano sem nome cujo significado é desconhecido para nós, embora sejamos solicitados a ouvir sobre ele com algum detalhe. No fim de um longo parágrafo de descrição, Orwell escreve:

"Gostaria que ele gostasse de mim como eu gostei dele. Mas também sabia que para reter minha primeira impressão dele não devo vê-lo de novo; e não preciso dizer que nunca mais o vi. Era comum fazer contatos como esse na Espanha."

Parece estranho começar um livro com um personagem que desaparece em seguida, quando as primeiras frases sugerem que estamos conhecendo o herói do livro. Aliás, o personagem importante que está sendo introduzido é o narrador, que parece um homem de grande particularidade e temperamento misterioso. Não sabemos muito sobre ele, e queremos saber mais. Estamos prontos para segui-lo.

O que ocorre quando começamos a ler um livro, um ensaio ou uma matéria de revista? Se a escrita for em geral interessante, vamos em busca do autor. Imaginamos a mente por trás da prosa. Com frequência, esse ato de imaginar se reveste de uma forma direta, visceral até: quem é essa pessoa? Por mais discretos e reservados que os escritores possam ser, eles estão presentes, e os leitores fazem julgamentos a seu respeito. Vivendo numa era em que autores se escondiam atrás das suíças da onisciência em terceira pessoa, Thoreau escreveu: "Nós comumente não nos lembramos de que é, afinal, sempre a primeira pessoa que está falando". Os leitores de hoje geralmente se lembram disso. Eles podem se lembrar disso excessivamente. O escritor sábio, apesar de se esforçar para evitar o embaraço, permanece consciente do olhar perquiridor do leitor.

A escritora contemporânea Francine du Plessix Gray oferece uma maneira provocativa de imaginar encontros entre escritor e leitor: "Um bom escritor, como um bom amante, precisa criar um pacto de confiança com o objeto de sua sedução que continua qualificado, paradoxalmente, por uma boa dose de incerteza, mistério e surpresa". O âmago desse conselho, a tensão entre entregar e reter, identifica uma decisão narrativa com que se deparam todos os escritores, embora, ao enfatizar Eros, Gray parece desconsiderar o verdadeiro romance da escrita. O "mistério e surpresa" pode ser genuíno, antes compartilhado entre escritor e leitor do que calculado.

Certa manhã, um rasgo de sabedoria aparece na National Public Radio, em uma entrevista com um guitarrista de jazz que se lembra de ter trabalhado com o grande Miles Davis. O guitarrista se recorda de que Davis uma vez o aconselhou sobre como tocar certa música: "Toque-a como se não soubesse tocar guitarra". O guitarrista admite que não tinha ideia do que Davis queria dizer, mas que tocou a música melhor do jamais pensou que poderia. "Toque como se não soubesse como." Conselho enigmático, mas um escritor pode entender. Não se concentre na técnica, que pode ser o mesmo que se concentrar em si mesmo. Entregue-se à sua história e ao curso de suas ideias, ou a suas lembranças. Não tenha medo de explorar, até de hesitar. Esteja disposto a se surpreender.

E assim há uma outro tipo de confiança em ação. Em certo ponto, você precisa confiar em si como escritor. Você pode não saber exatamente para onde está indo, mas precisa ir, e às vezes sem cálculo de sua parte, o leitor respeitará o esforço em si. Em Gana, que já foi uma colônia britânica e onde o inglês continua sendo oficial, mas uma segunda língua, eles têm um uso interessante para o verbo "try" (tentar). Se um ganense faz alguma coisa particularmente bem, com frequência lhe dizem. "You tried" (você tentou). O que poderia ser um insulto num inglês americano é um grande elogio por lá, um reconhecimento de que a pureza de intenção está no âmago da realização. O leitor quer ver você tentando - não tentando impressionar, mas tentando ir a alguma parte.

Tradução de Celso Paciornik

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