Gonzagão em festa na terra natal

Ídolos nordestinos reúnem multidões para celebrar o centenário de seu rei

LAURO LISBOA GARCIA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h09

Dona Marília saiu de Campo Grande, Dilson veio de Feira de Santana, Capitão Tenório cruzou estradas do sertão desde Caruaru. Como eles, diversos admiradores ou "seguidores" (como muitos fazem questão de frisar) de Luiz Gonzaga (1912-1989) deixaram para trás casa, família, animais de estimação e amigos, como em incontáveis histórias de retirantes, que, fugindo da seca, vão tentar a vida em cidades mais promissoras. Desta vez, porém, cheios de alegria, esses nordestinos fizeram o caminho inverso, só para participar do evento Gonzagão 100 anos no Exu, cidade natal do maior compositor conterrâneo deles de todos os tempos e um dos pilares da música brasileira.

Voltando à seca da região onde não chovia havia seis meses para enfim presenciar uma chuvarada no domingo, aqui viram shows de artistas do porte de Gilberto Gil, Dominguinhos, Elba Ramalho, Quinteto Violado e Waldonys, além de vários outros, em quatro palcos, acompanharam missas solenes, participaram de oficinas, seminários, exibições de filmes, espetáculos de dança, feiras de cultura, rodas de poesia, contação de causos.

Seja recordando o cancioneiro gonzaguiano como apresentando repertório próprio, esses cantores, compositores e instrumentistas deram uma panorâmica desde as raízes até as influências do Rei do Baião, mestre inconteste de todos os convidados.

Ao som da sanfona, seu instrumento característico, clássicos como Olha pro Céu, Qui nem Jiló, Xote das Meninas e o hino Asa Branca foram repetidos incontáveis vezes no Exu e no Recife, onde também se celebrou a data com shows de grandes ídolos para quem Gonzagão é forte referência, entre eles Alceu Valença e Fagner. Na cidade natal do mestre Lua, Elba reuniu o maior público na sexta-feira, estimado entre 40 mil (pelo Corpo de Bombeiros) e 50 mil (pela produção do evento).

Realizado pela Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco) e pelo governo do Estado, o festival custou R$ 3,2 milhões apenas no Exu, segundo a Secretaria de Cultura. Em cerimônia no dia do aniversário de Gonzaga (13 de dezembro), o governador Eduardo Campos anunciou a desapropriação do parque Aza Branca (com z mesmo, como se escrevia antigamente) e deixou no ar uma polêmica. O Estado oferecia R$ 3 milhões pelo parque onde estão situados o mausoléu de Luiz Gonzaga, enterrado ao lado do pai, Januário, o museu em sua homenagem e a casa onde viveu. A família proprietária do imóvel pede valor mais alto.

Mortes nunca mais. Polêmicas e rixas não faltam na história da cidade. Marília Alencar, de 70 anos, saiu daqui com 20 anos, com parte de sua família, inimiga dos Sampaio, para não virar mais um número na impressionante estatística de 80 assassinatos de parentes de ambos os lados. Luiz Gonzaga, amigo dos Alencar, fez música sobre esse episódio e é tido como um importante interventor na tentativa de apaziguar a cidade. "Ele sempre foi da paz, mas não sei se conseguiu, porque depois disso ainda teve briga aqui", conta Marília.

"Política sempre traz confusão", diz Marília, que ficou 28 anos sem voltar para Exu e, de dois anos para cá, vem sempre para as festas nos aniversários de nascimento e morte do ídolo. A rixa não impediu que muitos da família Alencar se casassem com outros dos Sampaio, ela incluída. "Unidos não estão, mas se aguentam", brinca ela. Mortes por assassinato, nunca mais.

Na praça onde há uma estátua de bronze de Gonzagão tocando sanfona, Gilson Pereira, que já foi motorista do compositor, diz que ele gostava de beber uísque com água de coco. "Era sua bebida predileta. Dois dedos de uísque e o resto de água de coco. Seu Luiz era uma pessoa muito boa."

Aliás, o destilado é uma das bebidas mais consumidas na região, o que é surpreendente diante do calor sufocante que faz aqui. Paramentado como o lendário cangaceiro Lampião, "quase tendo um infarto" por causa da roupa de couro, Giderson Tenório Silva, conhecido como Capitão Tenório, de 67 anos, vende livrinhos de literatura de cordel e recepciona turistas.

"Essa é a primeira vez que venho aqui. Sou fã de Gonzaga desde que eu tinha 11 anos, tenho muitos discos, já cheguei a ver show dele. A segunda esposa dele foi minha colega de escola, morávamos na mesma rua", conta. Em Caruaru, ele também é bacamarteiro e ator na encenação anual da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém. Mais tarde, sem fantasia, para dar "uma trégua" ao corpo cansado, ele era mais um na multidão a engrossar o coro que serviu de slogan para o festival: "Saudade o meu remédio é cantar".

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