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Gonjasufi se apresenta em São Paulo

Cantor faz show hoje no Sesc Pompeia, como parte do festival Nova Cultura Contemporânea

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

10 de maio de 2012 | 03h09

Gonjasufi, nome de guerra do californiano Sumach Ecks, sugere um misticismo narcotizado, envolto em hip-hop ou dub de aspirações cósmicas. Imagina-se uma cortina de fumaça canabinoide defumando beats, criando espaço para viagens psicodélicas e um sufi a recitar ensinamentos sobre elas. É uma justa introdução ao universo do rapper, cantor, produtor e professor de ioga, embora tais definições tomem significados múltiplos em sua vida e em sua arte.

Tanto em A Sufi And a Killer, de 2010, quanto no recente MU.ZZ.LE, o discurso é secular e as batidas situam-se nas intersecções entre hip-hop experimental, folk e rock psicodélico. Chegam a ser imundas de tão dissolvidas numa estética lo-fi. Deliciosamente imundas, diga-se. Ecks, que se apresenta hoje no Sesc Pompeia, como parte do festival Nova Cultura Contemporânea, fala de dor e ódio em falsetes fragilizados e berros ininteligíveis. Sua voz é invariavelmente filtrada por distorção; as batidas que o acompanham sugerem um universo não só meditativo, como também melancólico e sombrio.

"Gosto de dizer que demorei 28 anos para escrever estas letras. Era a idade que tinha quando fiz o primeiro disco", conta o rapper, cantor e produtor, ao Estado. "Mas as palavras saíram de forma improvisada, enquanto fazíamos as bases no estúdio. Nem escrevi a maioria das letras. Só as recitei", completa, pontuando frases com interjeições impublicáveis que dão cor ao sotaque de San Diego.

O "nós" a que Gonjasufi se refere trata-se da parceria com os produtores Flying Lotus e Gaslamp Killer. Fly-Lo, que toca no Sónar, no fim de semana, é o renomado líder da cena de beats de Los Angeles; Gaslamp, um dos destaques de sua gravadora Brainfeeder. No primeiro disco, a teia no-fi e exótica da parceria rendeu a Gonjasufi contrato com a influente gravadora Warp. No segundo, MU.ZZ.LE, lançado em fevereiro, Gonjasufi tomou as rédeas da produção para construir um sucinto disco de 25 minutos.

Mesmo tendo caído nas graças da crítica, a discografia recente de Gonjasufi, que produz desde os anos 90 sob diferentes pseudônimos, indica uma identidade musical curtida, como se fosse um veterano esquecido que acabou de assinar com um selo. "Cresci nos anos 90 e quem não fazia música essa época sempre será um suspeito para mim. O que mais tinha para se fazer?" Na época, o rapper lançava discos com o pouco conhecido grupo Masters of the Universe. Foi uma fase complicada, conta. "Tomava muita coisa, remédios misturados com álcool. Codeína e tal. Era uma encruzilhada entre a curtição e a autodestruição."

Foi então que Ecks descobriu a ioga, dedicou-se e virou professor. "Ensino o básico. Ioga Bikram. São 26 posturas, muito guerreiro e saudação ao sol. Só 90 minutos. Sempre sinto a necessidade de voltar ao básico em todas as áreas da minha vida, e a ioga representa bem isso." Além dos asanas que ensinou por um tempo em Las Vegas, Gonjasufi cita o sonho que teve com Jimi Hendrix como experiência crucial para a afloração de sua criatividade. "Ainda penso muito nesse sonho. Seria incrível tê-lo de novo. Estava num campo gigante e de repente alguém veio em minha direção. Parecia que ele flutuava. Nossos olhares se encontraram e uma fagulha intensa se acendeu. Era Jimi. Até no universo dos sonhos isso é algo incrível."

Papo de doidão? Talvez. Mas Gonjasufi está ciente da importância simbólica de Hendrix, e o papo cósmico rende boa ilustração de seu pensamento criativo. "Aquilo foi a pura verdade, veio do meu inconsciente. E é de lá que vem a música. Quando se aprofunda nas coisas que estão no fundo da mente, percebe que são a raiz e o mundo físico, o tronco. Você planta algo no presente, que volta para o subconsciente, e de novo para o consciente. E assim vai."

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