Gonçalo Tavares e a delicadeza

PASSO FUNDO

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

"Faz bem para diminuirmos o nosso ego", concluiu o português Gonçalo M. Tavares, numa praça de alimentação improvisada como Café Literário na 14ª Jornada de Passo Fundo, depois que seu interlocutor, o também escritor Ignacio de Loyola Brandão, comentou que o falatório ao redor deixava quem estava sobre o palco "meio tenso". Pouco antes do início da mesa, o amor próprio devia estar mais confortável, enquanto adolescentes pediam autógrafos e fotos com Tavares ali perto da lanchonete X-Cão.

Mas, gentil, o escritor prendeu a atenção de boa parte dos presentes ao ler trechos de dois livros que veio lançar no Brasil, O Senhor Valéry e a Lógica e O Senhor Swedenborg e as Investigações Geométricas, dois títulos da série O Bairro agora reeditados pela Casa da Palavra. Esses mesmos livros, que apresentam personagens inspirados em grandes escritores como moradores de uma vizinhança imaginária, ele irá apresentar na Bienal do Livro Rio, que começa no dia 1º.

Aos 41 anos, Gonçalo é um escritor dos mais elogiados e prolíficos de sua geração em Portugal. Só da série O Bairro, pela qual já saíram dez títulos, ele tem um total de 40 definidos. Sui generis, o processo criativo do autor, de deixar os textos "descansarem" por anos a fio antes de uma releitura para consertar problemas, permite tal estocagem de ideias. Foi o que fez com que seu mais novo título no Brasil, Uma Viagem à Índia (Leya), volume de 480 páginas definido como "a primeira epopeia portuguesa do século 21", tenha sido concluído em 2003 e lançado em 2010.

"Depois de escrever, volto ao texto só após três, quatro anos, quando já estou com olhar de leitor. Quando terminamos um texto, tendemos a achá-lo magnífico. Se olhamos na semana seguinte, já não parece tão extraordinário", diz o escritor. No caso dos livros de O Bairro, a esse método se juntou outro que denota igual perfeccionismo: "Posso ficar quatro horas seguidas a escrever quase sem levantar a cabeça. O que leva tempo é cortar, corrigir. Sou capaz de passar um mês inteiro revendo 20 páginas que escrevi em quatro horas."

O Bairro permite ao autor levar ao auge sua capacidade de concisão, o que permite a Tavares o que ele considera uma delicadeza com o leitor: dar espaço para interpretações. "Se há poucas palavras, o leitor pode preencher o texto com outras, próprias."

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