JAYME DE CARVALHO JR/ESTADÃO
JAYME DE CARVALHO JR/ESTADÃO

Golpes, contragolpes e o mundo pós-fato

Bem-vindos a Cleveland, Ohio. Não tragam bolas de tênis para o perímetro da Arena Quicken Loans. Mas podem trazer suas pistolas e rifles para celebrar ou protestar contra a convenção do Partido Republicano que começa hoje. Hoje é o dia seguinte a um novo assassinato de policiais por um beneficiário da liberdade de portar armas que demagogos fingem estar garantida na Segunda Emenda da Constituição. Este é o país que Donald Trump promete devolver a uma imaginada glória pré-década de 1960.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2016 | 02h00

Quando historiadores se debruçarem sobre o Orwelliano 2016, hão de notar que a tentativa de golpe lançada pela segunda maior força militar dos aliados ocidentais, na Turquia, é prima contextual distante da candidatura de Donald Trump. O golpe turco que, enquanto escrevo, parece fadado ao fracasso, ignorou a era digital. Os milicos marcharam sobre uma TV estatal com audiência um pouco maior do que a da TV Brasil e deixaram Recep Tayip Erdogan livre para falar à nação via aplicativo FaceTime. Então, CEO da Apple, Tim Cook, já está planejando um iCoup? A exortação do ditador eleito e paranoico de carteirinha Erdogan levou os turcos para as ruas e os soldados se esconderam em seus tanques. Notem a ironia de Erdogan ter antes se declarado inimigo da rede social. Para vergonha dos líderes do golpe, até os massacrados curdos e a metade dos turcos que odeiam Erdogan ou são perseguidos por ele defenderam seu mandato.

Já o candidato mais nefasto e obscurantista desde George Wallace, em 1968, tratado como filho bastardo do Partido Republicano, é o filho legítimo da rede social. Ele faz campanha em tweets para seus quase 10 milhões de seguidores. Quanto mais escatologia e asneira, maior sua visibilidade.

Trump cresceu como um tumor no vácuo cultural e político em que a realidade se mudou para os reality shows. O homem que quer ter o dedo no botão nuclear fica muito mais à vontade numa casa do Big Brother do que na casa do povo, o inconveniente Congresso. 

No mundo da TV em que falsos conflitos são resolvidos com soluções simplistas capturadas por múltiplas câmeras, Donald Trump é o mestre de cerimônias. Não há ingenuidade no fato de Trump ser admirador de Vladimir Putin. O medíocre ex-agente da KGB é o mais bem sucedido líder do mundo pós-fato, num tripé de acumulação de poder através da intimidação, suborno de oligarcas e propaganda. Putin e Trump têm a mentalidade de líderes de gangues. Oferecem proteção mafiosa ao tipo de eleitor exausto para quem, se a globalização não lhe tomou o emprego, a tecnologia tornou obsoleto.

Quando decidiu investir pesado em televisão, Vladimir Putin importou produtores para imitar os reality shows norte-americanos, inclusive a versão eslava do The Apprentice de Donald Trump. A fusão da propaganda com a mídia na Rússia foi explicada no livro Nada É Verdade e Tudo É Possível, pelo o russo-britânico Peter Pomerantsev. Ele narra sua experiência trabalhando como produtor de reality shows para a TV russa.

A ideia de roteirizar a realidade contaminou a política a partir da eleição de Putin, que, de cinzento e mal ajambrado burocrata, foi reinventado como o musculoso super-herói. Adorado mesmo por mais de 80 por cento dos eleitores? Conhecedores da psique russa acrescentam doses de temor a esta relação com o grande líder. O medo é também o combustível favorito da campanha Trump. Que mais poderosa prova disso do que o triste espetáculo de eleitores brandindo armas na porta da convenção do Partido Republicano?

*

O protesto contra agressões antissemitas sofridas por jornalistas judeus que narrei na coluna Heil Trump, em 20 de junho, parece ter surtido efeito. Pela primeira vez, neste longo inverno de destempero político no Brasil, o Twitter levou a sério uma queixa minha sobre abuso verbal e suspendeu a conta de um agressor.

Mais conteúdo sobre:
Donald Trump Vladimir Putin

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.