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Golpes

Quando é que um golpe deixa de ser um golpe e passa a ser outra coisa, com outro sentido – ou outro sentido com o nome errado? Não se trata apenas de uma especulação semântica

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2019 | 02h00

Discute-se o real significado da palavra “golpe”. Quando é que um golpe deixa de ser um golpe e passa a ser outra coisa, com outro sentido – ou outro sentido com o nome errado? Não se trata apenas de uma especulação semântica. A História do Brasil, nos próximos anos, vai depender de qual definição de “golpe” prevalecerá. Os militares já escolheram a deles, a mais simples e prática. O que houve no País, em 1964, segundo eles, foi nada. O que veio depois de 64 não foi uma ditadura de 20 anos, foi nada. 

Mas talvez os militares tenham razão em querer fingir que nada aconteceu, e vamos tocar pra frente. Neste caso o mais caridoso seria lembrá-los da diferença entre o real e o desejado, e saber distinguir o simples e o prático do truculento. Poderíamos começar descrevendo o golpe clássico: insurreição armada contra governo constitucional. O golpe clássico tem variações. Lembro da vez em que uma tropa entrou no parlamento em Madri ameaçando todos com sua arma e chegando a atirar para o teto. Em meio à confusão, com deputadas e deputados estirados no chão, o tenente limpou a garganta e disse com uma voz fina:

– Buenas tardes.

O levante do “buenas tardes” não deu certo.

A não ser quando há sangue e tragédia, claro, ou quando o drama shakespeariano acaba com as três primeiras filas da plateia agonizantes, todos os golpes têm um certo tom de farsa. Inclusive os que vitimam civis e não envolvem petardos e bandeiras. Fiquemos, então, o combinado. Não se glorifique o que é mais prático esquecer, mas não venham com essa de que 64 foi golpe e depois foi ditadura. 

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