Goldberg e o Ballet dos jovens

Obra de Tíndaro Silvano se mostra adequada à formação de um grupo coeso em Minas

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h06

O Ballet Jovem Palácio das Artes, de Belo Horizonte, estreou uma criação de Tíndaro Silvano, seu primeiro diretor (2007-2009), que agora nele atua como coreógrafo convidado. Tíndaro montou Goldberg com as Goldberg Variations que Bach compôs em 1741 para melhorar a qualidade das noites de insônia do Conde Hermann Karl Von Keyserling.

Desejando uma versão "mais suingada para ficar mais próxima do elenco", como declarou em conversa com o Estado, Tíndaro escolheu a que o Jacques Loussier Trio gravou. Com 12 obras no seu repertório, o grupo participa do circuito dos festivais competitivos e já se apresentou em 17 cidades brasileiras. No ano passado, Andrea Maia, ex-Balé da Cidade de São Paulo, assumiu a sua direção.

O modelo de uma segunda companhia acoplada a um grupo oficial foi inventado por Jiri Kylian em 1978, quando dirigia o Nederlands Dance Theater. O objetivo era oferecer uma experiência profissional a talentos promissores entre 17 e 22 anos, de modo a completar a sua formação.

Parece simples, mas não é porque esbarra na questão que mais inquieta a área hoje: como se capacita um bailarino a enfrentar a diversidade de danças que agora invade os palcos? No tempo em que o balé era a língua artística que quase todos falavam, era bem mais fácil.

Vejamos o caso específico do Ballet Jovem do Palácio das Artes. No quesito idade, seu elenco já não pode ser enquadrado na rubrica de Ballet Jovem, com uma média que se equipara a de muitas companhias profissionais. Isso não constitui um entrave ao seu projeto, pois há que manter candidatos a bailarinos em cena, apresentando-se para o público, para que aprendam por si mesmos a diferença entre fazer bem uma aula e dançar bem. Em quatro anos, 14 de seus bailarinos foram contratados por outras companhias.

Mas há um traço circunstancial relevante que, no momento, cabe ser observado. O Ballet Jovem é agora uma "segunda" companhia sem sintonia artística com a "primeira", que Sônia Mota dirige desde março do ano passado. As duas, companhias financiadas com dinheiro público, coabitam no Palácio das Artes, instituição mantida pelo governo de Minas Gerais - o que as torna as companhias oficiais de Minas Gerias.

O caminho artístico do Ballet Jovem reproduz o tradicional perfil das companhias oficiais de dança: um rodízio de coreógrafos, tendo como meta treinar o bailarino para a diversidade da produção contemporânea. E, como sucede com todas, ao invés da pretendida especialização em cada linguagem coreográfica, o que ocorre é uma pasteurização delas. O corpo não consegue, com o tempo que é investido em cada criação, estabilizar as sutilezas que distinguem um coreógrafo do outro.

O programa dançado pelo Ballet Jovem, que reuniu duas outras obras à estreia de Goldberg - Sostenuto, de Luis Arrieta (2010), com música de Rachmaninoff, e Iungo, de Adriaan Luteijn (2008), com música de Chopin - confirma essa impossibilidade. E, ao mesmo tempo, confirma também a adesão do Ballet Jovem ao perfil tradicional de companhia oficial. Goldberg, de Tíndaro Silvano, dançado pelos 22 bailarinos da companhia, se ajusta nele. E contribui porque tempera as oportunidades de desenvolver técnica com as de construir presença em cena - o que ainda não está lá, no que se vê no palco, mas, com o tempo, pode vir a estar, pois o elenco parece bastante empenhado.

A companhia dedica a temporada ao jornalista, crítico, professor e diretor Marcelo Castilho Avelar, morto de enfarte aos 50 anos, no dia 1º. Preparou um vídeo com imagens suas assistindo o ensaio. Muitos lugares do Brasil nos quais atuou sentirão a falta da sua argumentação bem fundamentada. Ele soube dosar competência e generosidade.

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