Gol fora vale mais

Não me considero invejoso. Sou cheio de defeitos e cometo pecados, com certeza, sabe Deus, mas a inveja não se destaca entre eles.

matthew.shirts@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2010 | 00h00

Lembro-me, no entanto, de uma vez, não sei se no ano de 1986 ou 1990, em que fiquei com inveja, inveja mesmo, de Mario Prata. Sim, o famoso escritor.

Conhecera-o em janeiro de 1985 na festa de aniversário do também escritor Reinaldo Moraes, autor de Pornopopéia. Ficamos amigos nós três. Andávamos juntos para cima e para baixo, como se diz. Reinaldo e Prata moraram até no mesmo prédio durante uns tempos, na Rua Alagoas, com Jorge Caldeira e outros queridos meus. Era quase uma república, só que dividida em apartamentos distintos.

Acho que aconteceu em 86, esse meu momento invejoso. Foi quando o Prata me disse que iria tirar férias. Até aí, tudo bem, né? Todo mundo tira. Mas ele não iria a lugar nenhum. Suas férias consistiriam em assistir pela televisão a todos os jogos da Copa do Mundo. Não estou falando dos jogos da seleção brasileira, apenas. Todos os jogos. Equador versus Austrália, o que fosse, sem nenhuma obrigação profissional de escrever a respeito ou comentar as partidas, assistir apenas. Chego lá, pensei. Um dia vou fazer o mesmo.

Nunca consegui. Ainda não, pelo menos. Mas não posso reclamar. Em 1994, fui enviado por este jornal, com o próprio Prata e o cartunista Paulo Caruso, para "cobrir" a Copa dos Estados Unidos. Como era verão, em São Francisco, alugamos um carro conversível, estimulados por um balconista da locadora de grande sensibilidade estética. Saímos em pequenas excursões pela região, que acabavam rendendo crônicas. Caruso desenhava, sempre no banco de trás. De vez em quando voava uma charge sua e ficava pela estrada. Se alguém as achou, deve ter guardado.

Mas já contei isso tudo em outras ocasiões. Lembrei do Prata, que se mudou para Florianópolis faz nove anos, porque acabo de ler seu novo livro, Os Viúvos (Leya, 2010). E também, claro, por causa da Copa, que começa na sexta-feira. No livro, Prata enfrenta a difícil tarefa de combinar dois estilos narrativos. O policial e de humor. E se sai muito bem. Dei inúmeras risadas. É o velho e bom Mario Prata. Há ótimas piadas ao longo da história, que se vai desdobrando em múltiplas direções até chegar a um desfecho para lá de pós-moderno. A linguagem de Os Viúvos é simples e engraçada. A estrutura narrativa é mais complexa. Para se ter uma ideia, chegamos a encontrar um cachorro embalsamado com o nome de Dunga e esse fato não chega, propriamente, a surpreender.

O resto não conto. Sou de opinião que quanto menos se disser de romances policiais, melhor. Aviso apenas que algumas cenas podem chocar os mais sensíveis. Verifique a classificação indicativa, como se diz nos filmes. E se você quiser acompanhar a discussão inglesa a respeito de ficção policial e humor, veja o ótimo artigo de Colin Bateman no Guardian, "Não é crime ser engraçado": http://www.guardian.co.uk/books/booksblog/2010/jun/03/colin-bateman-crime-funny-books.

A última vez que vi o Prata, ele lançava Os Viúvos na livraria Cultura no Conjunto Nacional, aqui em São Paulo. Enfrentei uma fila de centenas de leitores para conseguir um autógrafo no meu exemplar. Foi rápido o nosso encontro. Depois trocamos emails. Escreveu-me que esperava meu filho caçula Sammy, de 7 anos, em Florianópolis, "mas acompanhado, é claro". Respondi que os dois iriam se dar muito bem sozinhos mesmo. De uns tempos para cá, Sammy só fala de futebol. Faz dois álbuns da Copa. Lê o Caderno de Esportes do Estadão (juro). A resposta do Prata?

"Se ele souber por que gol fora vale mais, pode vir."

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