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Goiabeira

Sem saber bem por que, comecei a escrever sobre a goiabeira da minha avó, mãe da minha mãe

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 03h00

Um asteroide passou muito perto da Terra. Tinha tamanho e velocidade suficientes para causar danos incalculáveis num choque com nosso planeta. Mas, antes que você diga “era só o que nos faltava”, adianto que o “muito perto” não era tão perto assim – 16 vezes a distância entre Terra e Lua – e o mesmo asteroide só voltará a nos assustar daqui a 49 anos. O nome dele é (52768)1998 0R2, mas, para poupar tempo, você podia chamá-lo de 2, como um filho do Bolsonaro. E a melhor notícia sobre o choque que não houve é que ele seria na última quarta-feira, e portanto já passou. Esquece asteroides. Voltemos à nossa outra aflição.

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Sem saber bem por que, comecei a escrever sobre a goiabeira da minha avó, mãe da minha mãe. Não era um assomo de nostalgia, comum nos velhos. Ou só nostalgia. Me lembrei que a goiabeira era a única árvore no quintal da minha avó e, de repente, ali estava ela com o mesmo destaque na minha lembrança, a troco de que? Me lembrei que eu subia na goiabeira. Eu, não. Aquele guri, ágil como um macaco, destemido como só um guri. Eu estava me exibindo para mim mesmo, era isso? Em cima de uma árvore que não existe mais, no meio do quintal que não existe mais, de uma casa que não existe mais, o macaco dava seu show, para zombar de mim, o velho, seria isso? E então me dei conta. Aquilo era um pedido de piedade. 

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Piedade! Não façam isso conosco. Sobrevivemos a tudo: asteroides, guerras, genocídios, vulcões, e as pestes e as pestes das pestes, através dos séculos. E agora vem a peste das pestes das pestes nos expulsar do planeta. Do nosso planeta! Não merecemos isso. Somos formidáveis. Construímos civilizações. Destruímos civilizações, com a mesma competência Poupem-nos!

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Outra coisa: somos bons. Somos sensíveis. Amamos nossos bebês. Amamos a nós mesmos, amamos nossa infância. Amamos amar, amamos lembrar. No passado de cada um de nós, existe uma goiabeira, real ou imaginária, símbolo dos nossos sentimentos mais puros. Quem nos mata, mata a goiabeira em nós.

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Está certo, grande parte do que esta acontecendo é culpa nossa. Mas esse não é o momento para dividir culpa. Mesmo porque não temos a mínima ideia com quem falar para pedir trégua.

 

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