Goethe recriado na ficção

Um Homem Apaixonado, de Martin Walser, explora relação entre vida e obra

Marcio Seligmann-Silva, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

Martin Walser é um dos mais conhecidos escritores de prosa alemã da atualidade. Nascido em 1927, já recebeu importantes distinções literárias, como, em 1998, o Prêmio da Paz do comércio livreiro alemão. Seu discurso de agradecimento, no qual criticou a cultura da memória alemã dedicada à Segunda Guerra, lhe rendeu a fama de polemista. Já o romance de 2002, A Morte de Um Crítico, que foi lido como uma alegoria de um ataque a Marcel Reich-Ranicki, um dos mais importantes críticos literários alemães mas também um sobrevivente do Holocausto, fez de Walser, para muitos, um direitista, antissemita.

Mas, felizmente, seu romance de 2008, Um Homem Apaixonado, apresenta uma saída (ou desvio) desse percurso e teve uma recepção de modo geral positiva. Nesse livro, Walser faz uma espécie de novela biográfica que tem por tema o amor de Goethe, aos 73 anos, pela jovem e bela Ulrike Levetzow, de 19 anos. Essa paixão rendeu alguns belos poemas, entre os quais a encantadora Elegia de Marienbad, nomeada a partir da estação de férias na qual os fatos desse affair se passaram. Stefan Zweig, em Momentos Decisivos da Humanidade, já tratara desse amor. Mas Walser deu um tom próprio a essa história.

A pianista Maria Szymanowska, que teve um enorme papel musical e amoroso na estada de Goethe em Marienbad, é relegada a um segundo plano por Walser. Em vez dela, ele cria um rival na luta pelo coração de Ulrike: o senhor de Ror, um misterioso comerciante, poeta e tradutor. Com essa figura, o Goethe de Walser vê-se confrontado com seus limites, em grande parte resultado de sua idade avançada.

Assim, essa ficção histórica apenas embaralha mais as cartas dos fatos e da ficção. Walser faz Goethe ao longo do seu livro representar o papel de Werther (a mais popular de suas criações) e sua amada Ulrike assume o papel da paixão do personagem, Ottilie. Walser cita textos de Goethe e utiliza nomes de personagens históricos, criando um texto denso e pontuado de surpresas. Essa mistura vai tão longe a ponto de o livro todo ser dedicado a uma Ulrike von Egloff-Colombier. Um nome no mínimo singular, que pode ser real ou fictício, mas nesse umbral da obra serve para mostrar em que medida seu autor se escreve e se reinventa através da obra e da vida de Goethe. Mas do que isto, Walser brinca de modo divertido e em grande estilo com a impossibilidade de separarmos a literatura de nossas vidas.

MARCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NO IEL-UNICAMP

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