Godspell: vivo, vibrante, atual

Mais de 40 anos após sua estreia num teatro experimental do Greenwich Village, em Nova York, o La Mama, em 1971, o musical Godspell, que esteve em cartaz até junho, em Nova York, ganha outra montagem brasileira (Miguel Falabella dirigiu a última há dez anos) numa pequena e simpática sala da Consolação, o Teatro Commune (Rua da Consolação, 1.218, tel. 3476-0792). A produção, primeira para o teatro do editor Evandro Martins Fontes, reúne estreantes e profissionais com experiência no teatro musical, entre eles o diretor Kleber di Lázzare, que já dirigiu uma montagem de Hair.

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2012 | 03h09

Esta montagem de Godspell traz algumas alterações em relação à original. A principal delas: são 12 atores no palco, 2 a mais que na produção original do musical de John-Michael Tebelak (1949-1985) e Stephen Schwartz. O diretor Di Lázzare achou por bem dar a cada um dos intérpretes uma das belas canções compostas por Schwartz, várias vezes premiado por musicais como Pippin e parceiro de Bernstein em sua Missa.

Originalmente concebido como um espetáculo universitário por Tebelak, membro da Igreja Episcopal, morto precocemente, aos 35 anos, de um ataque cardíaco, Godspell logo conquistou o "off Broadway", chegou à Broadway e ganhou uma versão para o cinema, dirigida em 1973 pelo cineasta inglês David Greene (1921-2003).

A cada nova adaptação, Godspell, que nasceu como uma versão teatral das parábolas contadas no Evangelho Segundo São Mateus, ganhou elementos novos que diferenciam cada uma das remontagens. Na versão do La Mama, a peça não tinha música, composta por Schwartz quando o sucesso empurrou Godspell para o Cherry Lane Theatre, em 1971, e depois para o Promenade, onde ficou em cartaz até 1976.

Originalmente, os apóstolos integravam uma trupe de palhaços que, atraídos pelo magnético som do shofar de João Batista, descobriam Jesus num playground abandonado. A nova versão troca o cenário, mas permanece fiel ao espírito do musical, o de fazer um aggiornamento das parábolas de Mateus - e não só desse evangelista, pois três delas são do Evangelho de Lucas.

O cenário agora é o mundo alucinado da urbe. Travestis, prostitutas, dependentes de crack, executivos da Bolsa e consumidoras de grife são atraídos por um clarim moderno de um João Batista que se desdobra no papel de Judas (Arthur Berges). Todos se reúnem em torno da figura de um Jesus (Igor Miranda) que troca a fantasia de Superman (da versão filmada) pela camisa 10 da seleção brasileira. A mudança tem o propósito de buscar um correspondente brasileiro para o super-herói, mas esvazia a associação do Super-Homem com a figura do Übermensch de Nietzsche, criada em oposição aos superpoderes de uma entidade sobrenatural.

A construção do jogo teatral, que em algumas versões americanas também recorreu a signos de massa (houve até uma montagem ambientada no McDonald's), vai no caminho do teatro popular circense e acerta ao incorporar até o teatro de fantoches com sotaque nordestino para contar a parábola do filho pródigo. O mérito particular do músico Gilvan Gomes, que traduziu as canções e responde pela direção musical ao lado de Afonjah, é justamente o de facilitar a tarefa aos cantores com arranjos fiéis à partitura original e versões que privilegiam a sonoridade das letras . Exemplo disso é Alas for You, uma canção enérgica, rápida, repleta de semicolcheias, em que Jesus, irado, xinga os fariseus de hipócritas. É um dos melhores momentos da comovente interpretação do ator Igor Miranda.

Essa, aliás, é a palavra que define a montagem com um elenco afinado de bons cantores, atores e um quarteto de músicos capaz de rivalizar com uma orquestra. Janaína Lince defende a canção O Bless the Lord (Vem Me Abençoar) com a garra de uma cantora soul. Pier Marchi, como anjo, emociona com sua límpida interpretação de All Good Gifts (Os Bons Presentes). Anna Toledo faz a plateia rir no papel de um Abraão que fala com sotaque de "mano" do funk.

No epílogo, o diretor Di Lázzare opta pela versão que leva o Cristo morto em direção ao público, acenando com a volta do Messias por meio da canção que abre o espetáculo (Prepare Ye the Way of the Lord/ Prepare o Caminho do Amor, por Arthur Berges). Ela encerra a polêmica sobre o fim da peça sem a ressurreição de Jesus. Godspell, originalmente, termina com a música Beautiful City (cantada por Igor Miranda), reafirmação da promessa de uma cidade de Deus construída pelos homens.

Análise:

Antonio Gonçalves Filho

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