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Godard, Greenaway e a tecnologia que forja o futuro

Embora sejam irregulares, episódios de '3 X 3D' levantam questões relevantes sobre ética e estética no século 21

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2014 | 02h06

Em São Paulo, onde participou da Mostra de 2013, o produtor português Rodrigo Areias disse que, apesar da crise econômica que assola o país, não foi difícil conseguir dinheiro da União Europeia para fazer 3 X 3D. O filme foi feito no quadro das festividades que transformaram Guimarães, no norte de Portugal, na capital europeia da cultura em 2012. Na verdade, beneficiando-se do evento excepcional, Areias conseguiu verba para fazer dois filmes em Guimarães, um, o citado 3 X 3D, indagação sobre o futuro do cinema e da tecnologia, e o outro, Centro Histórico, que se volta para o passado, como uma investigação histórica. O melhor episódio é Vidros Partidos, do espanhol Victor Erice, cineasta bissexto que, se fosse possível desmembrar sua pequena (na duração) obra-prima, bem poderia ter assinado o melhor filme do ano passado.

O projeto Guimarães - Capital Europeia da Cultura, constituído pelos dois filmes, começou em 2007 e foi sendo desenvolvido até 2013. Teve seu pico, compreensivelmente, em 2012. A ideia sempre extrapolara a realização dos filmes e estabelecer Guimarães como um polo de produção para Portugal. Era necessário, fundamental, que os realizadores revissem ligação com o espaço - a cidade. Mas nunca houve a condição determinante de que fossem só diretores portugueses. O projeto sempre esteve aberto para estrangeiros.

Manoel de Oliveira assina outros dos episódios de Centro Histórico, e o dele é bem bom, e humorado. Areias tentou conseguir que Oliveira fosse um dos autores de 3 X 3D, mas o mestre centenário declinou. Seu argumento: se a terceira dimensão torna o filme mais realista, ele está fora. Um filme que imita a realidade não é arte, disse. Apesar do desinteresse de Oliveira, Areias conseguiu que outros três diretores fizessem os episódios de 3 X. Cada episódio tem duração aproximada de 16 a 18 minutos. Chamam-se Just in Time, 3 Disasters e Cinesapiens. Os autores - Peter Greenaway, Jean-Luc Godard e Edgar Pêra.

Você já deve ter ouvido o rumor de que nem o episódio de Godard salva 3 X 3D. Os críticos da prestigiada revista Film Comment pensam diferente. 3 X 3D encerrou a mostra Semana da Crítica, no Festival de Cannes do ano passado, e eles cravaram que os 18 minutos de Godard foram o top de linha do maior festival de cinema do mundo. Só Alain Guiraudie (Um Estranho no Lago), Abdellatif Kechiche (Azul É a Cor Mais Quente) e Jia Zhang-ke (Um Gosto de Pecado) chegaram perto, e assim mesmo ficaram atrás. É a sua chance de conferir.

O inglês Greenaway foi pioneiro na incorporação das novas tecnologias. Ele trabalhou muito com a alta definição - High Definition, HD -, utilizando câmeras que os japoneses ainda testavam nos anos 1980 e 90. Greenaway é, sempre foi, um autor enciclopédico. Tem viajado na obra de grandes artistas, de Shakespeare a Rembrandt. Em Just in Time, faz o que não deixa de ser uma investigação histórica e geográfica sobre Guimarães. Percorre com sua câmera a Praça da Oliveira, a igreja de N. S. de Guimarães e o claustro do Museu Alberto Sampaio.

Greenaway cria quadros que explora como texturas, movimentando seus atores dentro (e através) deles. Representam personagens que fizeram a história da cidade. O efeito é plástico e realçado por textos escritos sobre a tela, com letras de diferentes fontes. Mas ele foi acusado de poluição visual. Godard trabalha em outra direção, basicamente com material de arquivo. 3 Desastres poderia muito bem ser um episódio da série Histoire(s) du Cinéma, que ele vem desenvolvendo nos últimos 20 anos (ou quase). Godard adverte - o digital será uma ditadura. E ele vê nisso um desastre, como outros que já afligiram o cinema (mas aos quais a mídia sobreviveu).

Para falar do futuro, Godard também viaja ao passado, à obra de dinossauros como John Ford, Fritz Lang e o próprio Nicholas Ray. Godard não apenas usa o 3D, como Hollywood tantas vezes faz para criar efeitos (e de preferência em blockbusters). Ele quer saber se o formato 3D é viável para viajar no intimismo. Godard fala sem parar, e sua voz é decisiva no efeito hipnótico que 3 Desastres pode criar no cinéfilo. Se o autor francês investiga o meio (e a mensagem), Edgar Pêra interessa-se pelo público. Embora seu episódio seja o mais fraco do trio, o conceito não deixa de ser interessante - e se o cinema estiver a nos transformar? A mudar, com o 3D, nossa percepção do mundo? Godard é quem melhor responde à questão.

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