Godard e a geração beat, o que é igual na diferença

Jean-Luc Godard ou o movimento Beat? Film Socialisme ou Howl? Algo muito sério se passou quando o jovem Godard, com roteiro de seu (então) amigo François Truffaut, fez, em 1959, Acossado. O filme virou farol da nouvelle vague, movimento que, a partir da França, repercutiu em todo o mundo, ajudando a mudar a face do cinema nas últimas décadas. Algo igualmente sério se passara nos EUA, em 1957, quando o poema Howl, de Allen Ginsberg, foi levado a julgamento, sob a acusação de literatura obscena.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2010 | 00h00

Godard tinha 29 anos quando fez Acossado. Passaram-se mais 51 e ele está, portanto, octogenário, mas não deixou de ser transgressivo. A nova provocação de Godard chama-se Film Socialisme. Estreou em Cannes, em maio, onde o autor era esperado como convidado de honra do maior festival do mundo, mas ele, invocando um problema "grego" - havia um protesto, na época, na Grécia, mas até hoje as pessoas se perguntam o que, exatamente, Godard estaria querendo dizer - não deu as caras, o que não impediu Film Socialisme de virar umas das sensações (a sensação?) do evento. Quanto ao julgamento de Howl, pode-se dizer que virou um marco na história das ideias. Ali, naquele momento, nasceu, ou se consolidou, a contracultura.

É a última exibição do filme de Godard e a primeira do de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que já foram parceiros no documentário The Times of Harvey Milk. Ginsberg, ao lançar seu uivo, se interrogava sobre o futuro da "América" e da própria humanidade. O filme reconstitui, à maneira de um docudrama, o julgamento, com James Franco na pele do poeta. Sempre que o poema é invocado, aparece sob a forma de animação. Godard também se interroga sobre o futuro - da Europa. Seu filme é ficção ou documentário? Digamos que trafega nas bordas de ambos.

O filme divide-se em três partes. Em Coisas Como, várias conversas ocorrem, em várias línguas, entre os passageiros de uma viagem ao Mediterrâneo - Godard, com certeza, viu Cinema Falado, de Manoel de Oliveira. Em Nossa Europa, um menino e uma menina intimam os pais a lhes explicarem o significado de palavras como liberdade, igualdade e fraternidade. De certa forma, elas também estão em discussão no julgamento de Howl. Em Nossas Humanidades, fechando o ciclo, o autor se interroga sobre o mito, visitando Egito, Palestina, Odessa, Barcelona, Nepal e, claro, Grécia - o famoso berço da democracia. É a parte mais bela de Film Socialisme e um retorno de Godard a Fritz Lang, que, em O Desprezo, de 1963, filmava a Odisseia dentro de seu filme.

Militância. Talvez o que tenha levado Epstein e Friedman a Ginsberg - e Howl - tenha sido o homossexualismo, que também os atraiu em Harvey Milk. Ginsberg dedicou sua obra-prima, Kaddish e Outros Poemas, à mãe, que morreu louca. Foi amante de Peter Orlovsky, Neal Cassidy e Herbert Huncke. Ele detestava a militância política e dizia que a beat generatrion foi destruída pela contaminação do marxismo e do maoismo. A Mostra também exibiu William S. Burroughs - Um Retrato Íntimo, sobre o escritor que foi, com Ginsberg e Jack Kerouac, outro luminar beat.

FILM

SOCIALISME Cinema Sabesp - Hoje, 21h40

HOWL

Cine Livraria Cultura 1 - Hoje, 22h10

CineSesc - Amanhã, 22h30

Reserva Cultural 1 - Quinta, 19h30

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