GNT exibe documentário sobre Guerra do Vietnã

Hoje, 27 de janeiro, faz 28 anos que a Guerra do Vietnã acabou. Boa oportunidade para assistir a um documentário quase perfeito e imparcial, feito por uma viúva de guerra norte-americana, e que será apresentado amanhã, domingo, às 21 h, no canal pago GNT. O filme chama-se Lamentamos Informar, foi escrito, produzido e dirigido por Barbara Sonneborn, ganhou prêmios de direção e fotografia no Festival de Sundance de 1999, foi indicado para o Oscar do mesmo ano e está inédito no Brasil.Neste filme, a guerra tem dois lados. Não os lados de cada um dos três principais países envolvidos no conflito (EUA, Vietnã do Norte e Vietnã do Sul), mas os das vítimas dos três países. A história da guerra é contada do ponto de vista das viúvas, são delas as informações e as emoções. Então, o que temos não é uma guerra de generais e de governos, de estratégias e de heróis, mas de perdedores, viúvas e órfãos. Para os vietnamitas, não era a "Guerra do Vietnã", e sim a "american war", a guerra dos americanos.A fotografia do filme é outro dos seus pontos altos. As tomadas dos depoimentos são comuns, mas as que buscam os lugares dos combates, e recorrem a imagens de arquivo para estabelecer o conflito paz/guerra, são primorosas. Vemos os campos cultivados refeitos e logo depois uma imagem de destruição. O filme começa com um barquinho manobrado por uma das viúvas vienamidas nas águas fertilizantes que durante a guerra foram um inferno para as tropas americanas. Apesar do grande poder das imagens, a diretora tira maior força das palavras, da franqueza e força das mulheres dos dois lados. Desse ponto de vista, é também um filme profundamente feminino.A aplicação de defensivos agrícolas hoje e a de agente laranja na guerra. Uma das viúvas americanas que depõem é a de um soldado da brigada química, a do agente laranja: o marido morreu de câncer múltiplo oito anos depois. Ela se considera uma viúva de guerra. Uma sul-vietnamita não é viúva: na sua aldeia, os americanos queimaram sua casa com lança-chamas, mataram seu primo de cinco anos a tiros e ela, com 14 anos, foi ser amante de soldados em Saigon. Hoje, ela sofre com isso: "Eu não faria o que tive de fazer se pudesse escolher novamente." Outra fala das torturas nas mãos dos militares do Sul. Uma americana conta a carta que recebeu do front, dizendo que seu marido fora atingido numa explosão de morteiro, amputara uma perna, tivera de arrancar um olho e tinha um estilhaço no cérebro. Seu neurologista nos EUA foi franco com ela: "Reze, filha, reze para seu marido morrer." Outro voltou vivo, "mas deixou a alma lá". Matou-se seis anos depois na garagem, com um tiro, e deixou um bilhete: "Eu te amo, querida, mas não agüento mais as lembranças."A própria realizadora do filme, Barbara Sonneborn, fez o filme para se livrar de lembranças dolorosas. O marido Jeff foi para a guerra e morreu na batalha por Khe Sahn. Ela contava 24 anos quando recebeu uma carta do governo iniciada pelas palavras que deram título ao filme: "Lamentamos informar..." Barbara tornou-se fotógrafa e artista plástica. Em 1988, vinte anos depois de receber aquela carta do governo, começou a planejar seu filme. O projeto de Barbara era reconstruir a dor de outras mulheres e ir até o lugar onde o marido havia morrido. Ela chega lá, depois de entrevistar cerca de 200 viúvas, selecionar as que iriam depor, viajar, encontrar novas personagens ao longo do projeto e fechá-lo em 99. Nesse trajeto, construiu um filme bonito, forte e informativo. Aqui se vê o que é, na verdade, uma guerra.Ladrões - O festival do cinema noir (Telecine Classic, 22 h) apresenta hoje um filme competente que não tem nada de "noir" (escuro, negro). Pelo contrário, é até um filme muito claro, inclusive fotograficamente. Chama-se Mercado de Ladrões e é dirigido pelo francês Jules Dassin, que depois faria um filme de enorme sucesso, Zorba, o Grego. Dassin está longe de ser um diretor genial, ou mesmo extraordinário, mas o filme exibido hoje pode ser considerado o inspirador de Sindicato de Ladrões, este, sim, um filme poderoso. O elenco é bom (Richard Conte, a interessantíssima Valentina Cortese, o exagerado Lee J. Cobb - que também está no filme de Kazan), a fotografia também, e a história, sobre atravessadores num grande mercado, tem força.

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