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Glossário de 2017

A Casa Branca tem facções que recorrem ao vazamento para atrair atenção do patrão

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2017 | 02h00

Já se vão três anos desde que esta coluna prestou o último serviço semântico para o leitor manter as palavras certas na ponta da língua. A era Obama nos deu um presidente-escritor. Hoje vivemos sob o Anderson Silva do vernáculo. Não sobra substantivo, advérbio, artigo ou conjunção de pé quando o executivo-chefe entra no ringue. 

Perdão – a palavra está há dias nas manchetes e nos tuítes do homem cuja caneta tem o poder irrestrito de assinar perdões presidenciais. Esse tipo de perdão não é o que eu dispensava quando flagrava minha adolescente chegando em casa três horas depois do toque de recolher materno. Está previsto na Constituição e se aplica a casos especiais, em que o presidente age como juiz, interferindo em favor de alguém acusado de crime. Mas estamos em território desconhecido. O perdão sugerido envolveria gente como o primeiro filho, o primeiro genro, o general Michael Flynn, defenestrado como assessor de segurança nacional, e até o homem segurando a caneta. Isso mesmo, o presidente se declarou capaz de perdoar a si mesmo. É algo que a Constituição não previu, não proibiu, mas nunca aconteceu. E por que esse festival de leniência sem acusação? Porque a investigação especial do conselheiro Robert Mueller sobre a interferência russa na eleição está puxando outro fio da meada, o da trilha de dinheiro, esta mais fácil de provocar alarme entre os visados do que a tarefa de provar colusão com a Rússia para prejudicar a campanha democrata.

Nepotismo – Não existe mais. Assim como o dinossauro T-Rex não pode ser encontrado no zoológico de Washington, o nepotismo foi considerado extinto quando o presidente eleito empregou a primeira filha, o primeiro genro, despachou o primogênito para confabular com o serviço secreto russo e só marca compromissos em propriedades que levam seu nome e são administradas por seus dois Lulinhas (inserir o emoji de piscadela aqui).

Drenar o pântano – A expressão, que alude ao terreno onde a capital foi construída, era um dos slogans da campanha. Assim como herança maldita, cunhada pelo meliante João Santana, não quer dizer nada. Drenar o pântano seria secar a capital das influências de plutocratas, especialmente de Wall Street, que pagava por palestras da Hillary. Seria mas não é, já que nada menos de sete assessores vindos de Wall Street estão firmemente instalados no círculo íntimo do presidente defendendo primeiro, é claro, o seu pirão.

Hillary Clinton – Esqueçam a candidata, senadora e ex-secretária de Estado. A nêmese indestrutível ocupa um latifúndio no consciente do homem que a derrotou no Colégio Eleitoral, mas teve menos 3 milhões de votos populares. Todo dia, Hillary dá a volta ao mundo nos tuítes presidenciais que a descrevem como responsável por tudo de que o tuiteiro chefe é acusado (googlar também “projeção” e “Freud”).

Ganhando – substitui “perdendo”, como em não conseguir aprovar uma só legislação em seis meses de governo, apesar de o mesmo partido controlar o Legislativo e o Executivo.

Distração – Quando membros do gabinete e assessores especiais não conseguem se lembrar de encontros com espiões russos ou do detalhe irrelevante, no caso do primeiro genro, que deve US$ 1 bilhão a diversos credores quiçá interessados em obter vantagens do governo federal.

Vazamento – Não há bombeiro que dê conta de tapar os canos da Casa Branca. O vazamento de informações, uma tradição do relacionamento da imprensa com o poder, virou uma forma de comunicação, não com 300 milhões, mas com um só americano, o que se senta no Salão Oval, tuitando e assistindo aos vazamentos pela TV. Mais dividida do que a antiga Iugoslávia, essa Casa Branca tem facções que recorrem ao vazamento para atrair atenção do patrão.

Que os céus nos acudam – Mesmo significado, urgência multiplicada exponencialmente.

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