Glória Perez faz balanço de "América"

Glória Perez ri por último. Depois de um começo atribulado e um miolo tateante, América termina na sexta-feira como um sucesso de audiência. Na segunda-feira passada, dia 24, a trama registrou 61 pontos no Ibope, com share de 80%. Isso significa que de cada 10 televisores ligados no País, 8 estavam acompanhando a decisão do peão Tião (Murilo Benício) de montar o temido boi Bandido.América estreou em 14 de março com 56 pontos, após Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva. No terceiro dia, caiu para 43 pontos, e na segunda semana já tinha apenas 40. Vale ressaltar que 40 pontos no Ibope não é algo desprezível - são 2 milhões de domicílios -, mas é um índice baixo para uma novela das oito da TV Globo.Nos bastidores, as divergências entre a autora e o então diretor Jayme Monjardim eram cada vez mais maiores. Monjardim pediu afastamento da novela, que passou para Marcos Schechtman.Sol, papel que seria de Cláudia Abreu, mas ficou com Deborah Secco, foi apresentada como uma protagonista chorosa e sussurrante, chapada em imagens marrons. Muito diferente do que Glória diz ter planejado para ela. É por isso que a autora, que depois das férias tentará engatar uma minissérie em que contará a história do Acre, credita à primeira direção o fracasso inicial da novela.Fora do Projac, a novela enfrentou pesadas críticas. Logo que foi divulgado que ela se passaria no interior de São Paulo - hábitat natural dos peões brasileiros -, os grupos de defesa dos animais tentaram demover a Globo da idéia. Houve até quem achasse que Glória estaria incentivando a imigração ilegal, ao criar uma heroína que persegue o sonho de fazer a vida nos Estados Unidos. "Imagine se uma novela tem o poder de fazer uma pessoa vender tudo e atravessar um deserto. Estreou em março e, em abril, acharam que 30 mil pessoas tinham vendido tudo para atravessar o deserto por causa dela. Só pode ser brincadeira", diz Glória, em entrevista ao Estado, no Projac, onde conferiu a gravação das últimas cenas na semana passada.Glória, que não tem medo de polêmica e não se furta a uma boa discussão, prepara revoluções. A primeira, confirmou ao Estado: Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) vão mesmo se beijar. Quanto à segunda, é reticente. Sol vai ficar com o mocinho Tião ou com Ed? Segundo pesquisa no site da novela, dos mais de 75 mil votantes, 80% querem que ela fique com Ed. Seria um final incomum, para uma novela incomum.BeijoO beijo entre Zeca e Júnior colocará América na história como a primeira novela a mostrar um beijo quente entre dois homens. "Dá para mostrar qualquer coisa na TV, dependendo da delicadeza. O importante é que, com isso, se avance na mudança do olhar sobre o gay", explica Glória, dez anos depois do polêmico casal Sandrinho e Jefferson, de A Próxima Vítima, de Sílvio de Abreu. Segundo a Globo, 47,1% dos contatos de telespectadores são a favor do romance e 52,9%, contra. "Cobrem das instituições, e não da ficção"Leia os principais trechos da entrevista que a autora Glória Perez deu ao Estado, no Projac:América começou sob uma chuva de críticas, e problemas com a direção. Agora, se tornou um sucesso de audiência, mas ainda não conquistou a crítica. Qual é o balanço? O público se rendeu à novela porque a história é boa. O que você teve de mudar na idéia original da novela? Sobre isso, há muita lenda. A novela não teve de ser ajustada, ela teve no começo uma direção equivocada. O ajuste foi sair aquela direção e entrar uma outra direção que fazia o que estava escrito. Então, tudo o que acontece na novela, as pessoas dizem "ah, mudou tal coisa".Vamos falar do Júnior e do Zeca. Essa história do Júnior me orgulha muito. Eu já tinha criado vários personagens gays, mas queria mostrar o conflito interno. Agora, vai ser muito comentado o beijo deles.Vai mesmo ter beijo? Vai rolar, claro.Outra crítica que você recebeu é que em América mexicanos e americanos falam português. Tinha uns tontos que diziam isso. Queriam o quê? Que falassem inglês? Legenda, com tanta gente que não sabe ler? Essas mesmas pessoas acham natural Cleópatra e Gandhi em inglês. A gente precisa do gancho, para que as pessoas vejam no dia seguinte. E a simples exigência do gancho já é a do sensacional. Quem critica, é porque não sabe as regras básicas do folhetim. É como criticar um soneto porque rima.

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