Glória Menezes

O teatro é seu território livre: aos 75 anos, ela agora vive uma adorável velhinha em ensina-me a viver e, como sua personagem, quer mais, algo experimental

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Qual é a sua explicação para o sucesso da peça?

É uma soma de acertos. Às vezes, acontece de o texto ser muito bom, a direção maravilhosa, mas não dá liga. No nosso espetáculo, isso não acontece. Acredito que a direção não realista do João Falcão é grande responsável. O cenário é sugerido e incentiva a imaginação do público, que aceita bem essa brincadeira. Afinal, ninguém reclamou ainda do fato de eu dizer "Vou fazer um chá" e, em seguida, ligar um secador de cabelo...

E o que você mais gosta na sua personagem, Maude?

É difícil pinçar algo específico, pois ela é um conjunto de coisas gostosas. A grande diferença dela para mim é que Maude é uma mulher livre e solta no mundo. Não tem a quem dar satisfações. A peça revela pouco sobre ela, sabemos apenas que teve cinco maridos - oficiais, bem entendido.

Há alguma característica dela que você gostaria de ter?

Quando eu disse que nossa diferença está em ser ela uma mulher livre significa que eu tenho uma família constituída, que me dá uma outra visão de vida. Talvez eu até pudesse dizer que Maude é uma mulher egoísta, pois vive apenas para si mesma. Ela dá lições de vida, como dizer: "O coração de quem não desiste é sempre jovem." Parece frase feita, mas tem muita profundidade. Por outro lado, ela nunca deixa esquecer que os outros fazem parte de seu mundo particular.

Mas, por favor, confesse: se pudesse, o que você faria como ela? Pegaria o carro dos outros na rua como se fossem seus?

Bem, eu admiro sua forma de viver, mas não sinto vontade de fazer as mesmas loucuras. E ela é muito teatral.

Você gosta de desafios no teatro, pois, em Jornada para Um Poema, vivendo a portadora de um câncer em fase terminal, despiu-se física e mentalmente em cena, além de perder os cabelos.

Foi uma grande entrega, de fato, mas o que mais me emocionou, o que mais me chocou foi raspar a cabeça. Confesso que relutei em montar a peça ao saber que precisava fazer isso. Mas, como a peça não permitia o meio-termo, resolvi aceitar. E, de fato, gosto de experimentações. Estou agora com um texto oferecido por um jovem daqui, de São Paulo, que é bem radical. Mas ainda estou pensando.

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